A diferença entre inovação e transformação na era digital

Muitas vezes usadas como sinônimos, as duas ações são totalmente diferentes

Marco Cavallo

03/05/2019

Se uma organização quer que seu negócio sobreviva, ela precisa inovar. Se ela quer ter uma chance de prosperar, ou até mesmo sobreviver no mercado na era digital, ela precisa de transformação. Certamente, inovação ou transformação não são garantias de sucesso, porém, a falta de ambas quase certamente leva à desgraça. Torna-se quase impossível citar uma empresa ou uma indústria (exceto o governo) que, quando confrontada com uma mudança no mercado, não conseguiu inovar e, em vez disso, permaneceu com seu modelo tradicional de negócios e sobreviveu ou prosperou.

 

Claramente, quando uma organização depara-se com um mercado em plena disrupção e consumidores com necessidades e expectativas em constante mutação, dúvidas e inseguranças ocupam as reuniões de diretoria e até mesmo as noites de sono dos executivos. Como posso inovar sem mudar a percepção do meu negócio? Será que preciso inovar em meus produtos ou serviços? Será que a aplicação de alguma nova tecnologia poderia resolver o problema? Poderia uma série de inovações, introduzidas em rápida sucessão, resultar em transformação? Torna-se extremamente fácil confundir ambos ou desfocar os limites entre inovação e transformação.

Em algumas situações, a transformação pode levar à inovação. Em outros, a inovação pode levar à transformação, mas essa relação de causalidade mútua é muitas vezes negligenciada pelas organizações, muito pela crença dos profissionais envolvidos que ambas significam a mesma coisa. Embora de fato relacionadas, é crucial que os líderes de negócios modernos saibam a diferença entre os dois termos e suas aplicações dentro de suas organizações.

 

Transformação é o processo de iniciar ou terminar algum paradigma, de forma que necessariamente envolva alguma ruptura ou disrupção. Como exemplos, é possível citar a invenção da lâmpada, que marcou o fim das lâmpadas a gás, ou a criação do contêiner para transporte marítimo, que marcou o efetivo início da globalização. A transformação dentro de uma organização é algo que estabelece a completa redefinição de sua proposta de valor central (core business) e seu modelo de negócios. Como, por exemplo, o que aconteceu com inúmeras empresas de tecnologia que dependiam da venda de computadores e periféricos relacionados até que — no início dos anos de 1990 — sentiram a pressão do mercado que estava mudando e demandando mais serviços do que produtos, e passaram a ter um modelo de negócios voltado à vendas consultivas e aconselhamento, com ênfase em sistemas de informação ou serviços voltados à virtualização, tais como SaaS, PaaS e IaaS.

 

Já a inovação é o processo de mudanças evolutivas em uma oferta de produto ou serviço. Pense em lançamentos de novos produtos, ou novas versões, cada um projetado a partir do anterior, mas adicionando novas melhorias em seu design, funcionalidade e/ou capacidade. A inovação pode encontrar seus resultados em uma infinidade de áreas que vão desde modelos de negócios, novos produtos e serviços, relacionamento com o cliente, reestruturação organizacional e até mesmo em como os investimentos em tecnologia são feitos. Pode-se dizer que a inovação faz algo que antes parecia impossível ser possível, concentrando-se em repensar o modo de fazer as coisas, questionar as possibilidades e alternativas para traduzi-las em ações.

 

A velocidade, ou a falta desta, é provavelmente o fator que melhor diferencia a inovação da transformação. Geralmente, as transformações levam tempo, pois a transição de um estado ou situação para outro é um processo que demanda recursos e adaptações processuais e culturais, o que pode levar meses dentro de uma organização. As inovações, por outro lado, se referem a um momento de criatividade súbito, e as ações incipientes que levam a implementar os objetos ou ações decorrentes destes momentos na estratégia de uma organização, o que pode ocorrer de uma hora para outra. A inovação requer incentivo, colaboração e comunicação, porém, implica em medidas claras que devem ser tomadas por todos os atores envolvidos dentro das organizações, devendo ser encarada como o início de algo grandioso. Em sequência, acontece a transformação propriamente dita, o processo de implementação seguindo a primeira “faísca” da inovação.

 

Disrupção por meio de inovação

 

Uma das maiores características das inovações é que elas desafiam as “regras” do mercado, uma vez que impulsionam as mudanças e as tornam realidade. Um exemplo mais claro disso é a criação das mídias sociais e como elas trouxeram uma forte disrupção para o marketing, que aparentemente é irreversível. Dar às pessoas a capacidade de se comunicar, independentemente da localização física, fez com que as informações começassem a fluir entre os usuários com uma velocidade jamais vista. Com o surgimento de novas tecnologias, como smartphones e outros dispositivos conectados à internet, a sociedade também passou por transformações para acomodar tais inovações.

 

Inovação é o repensar ou reimaginar de um processo de negócios que já existe. Essencialmente, uma vez que uma transformação é realizada e a nova realidade é estabelecida, a inovação descreve quando essas normas poderão ser novamente desafiadas ou redefinidas. Dentro da esfera das mídias sociais, estas reformularam a dinâmica da comunicação social e várias outras normas aceitas, fazendo com que as notícias, entretenimento, recreação, conteúdo e negócios mudassem suas formas de interação com seus consumidores. Uma vez que as mídias sociais tornaram-se parte da vida cotidiana, ficou mais fácil para as marcas e empresas se conectarem com seus públicos-alvo e consumidores.

 

Durante anos, a interação de um cliente típico com uma marca geralmente incluía apenas o ponto de venda, a exposição ocasional a materiais de marketing e anúncios em mídias impressas ou televisivas. As plataformas de mídia social permitem que as marcas forneçam constantemente ao público conteúdo relevante e personalizado, fazendo com que estas consigam ter um relacionamento mais próximos e significativo com estes, o que é importante, pois muitos clientes gostam de se sentir conectados às marcas que apreciam. A mídia social foi a inovação que levou a uma transformação profunda na forma como as pessoas se relacionam e interagem, e como as empresas atingem seus clientes.

 

Neste admirável mundo novo, toda prática de negócios deve ser constantemente reinventada para permanecer viável. Todas as suposições estão sujeitas à revisão e debate. O sinal mais importante de um modelo ou processo de negócios saudável é o fato de que este pode ser repensado e modificado diversas vezes para se adequar a novas metas, finalidades, necessidades e tecnologias à medida que estas evoluem. A mídia social, por exemplo, não é um conceito estático, e continua a mudar por meio da inovação para inúmeras finalidades, incluindo itens como privacidade, modelo de negócios e serviços de streaming.

 

Capitalização por meio de inovação

 

Um dos grandes desafios para qualquer líder organizacional é demonstrar o valor ou retorno de ações voltadas à inovação, o que torna muito grande a pressão em cima de tais projetos por parte dos stakeholders. Uma empresa que pretende capitalizar por meio da inovação deve sempre incluir em suas estratégias a constante atualização de seus produtos com as mais recentes tecnologias conceituais, valores que se adaptem às necessidades e expectativas do mercado ou novas funcionalidades e/ou utilidades, de forma que estas possam prover vantagem competitiva perante os concorrente ou melhorar sua percepção pelos consumidores e clientes do setor de atuação. A dedicação contínua à inovação poderá construir resultados sólidos e sustentáveis ao estabelecer novos padrões de satisfação do cliente, reconhecimento da marca e lucratividade em um curto período de tempo.

 

Como a tecnologia inovadora responde às demandas dos consumidores, as mudanças de paradigma já estão se tornando a norma do mercado atual na era digital, ou seja, já não é mais suficiente para se manter competitivo. Quando um novo produto ou um novo serviço entra no mercado, isso gera uma grande quantidade de demanda repentina. Toda uma indústria pode mudar aparentemente da noite para o dia, à medida que os concorrentes correm para criar algo par ou melhor. Desenvolvedores de terceiros se esforçam para fornecer o melhor conteúdo e serviços possíveis para acompanhar os recém-lançados.

 

Toda organização que quer crescer no mercado atual deve pensar constantemente “fora da caixa”, e considerar alternativas comercialmente viáveis antes da competição. Isso beneficia amplamente os consumidores, pois a inovação conduz a melhores produtos e geralmente a preços mais baixos, podendo até mesmo alavancar a escalabilidade para as organizações, tão difícil de ser alcançada em tempos de hiperpersonalização, hiperoferta e economia compartilhada.

 

A evolução dos mercados por meio da transformação

 

Transformação descreve os processos em andamento que acontecem no mundo após a inovação entrar em cena. O Google é um ótimo exemplo de uma empresa transformadora. Hoje, o mecanismo de busca é altamente reconhecível e fácil de usar, mas desde a sua criação, o Google passou por constante revisão, otimização e reconfiguração para fornecer resultados de pesquisa mais precisos e relevantes, permitindo que os usuários pesquisassem de forma confiável. Ao fazer isso, fornece às empresas as ferramentas necessárias para atingir seu público-alvo. No entanto, outros líderes globais como Microsoft, Cisco, IBM, Dell, HP e empresas não relacionadas à tecnologia, como Unilever, Nike e Audi são ótimos exemplos de empresas que estão constantemente se transformando para atender às demandas do mercado.

 

O impacto da transformação de negócios não pode ser superestimado. Ciclos de reconfiguração, revisão e otimização continuam a ocorrer em ritmo acelerado. As maiores e mais reconhecidas marcas do mundo atualmente usam a inovação transformadora para beneficiar os clientes e suas próprias estratégias corporativas. Líderes organizacionais experientes seriam sábios em incentivarem suas equipes a constantemente procurarem maneiras de inovar, uma vez que as regras dos negócios modernos mudam em uma base aparentemente diária, e para permanecerem competitivas, as organizações devem permanecer relevantes aos olhos do mercado, certificando-se de que estejam atualizada em novas tecnologias, novas tendências e novos conceitos, assim como capacitando seus funcionários a colaborar e terem iniciativas para inovações. Essa energia criativa e cultura organizacional é o caminho que irá impulsionar a transformação dentro das organizações de inúmeras maneiras.

 

E como fica a transformação digital neste cenário?

 

A transformação digital é possivelmente o melhor exemplo prático da diferença entre inovação e transformação. Essencialmente, a transformação digital descreve o processo pelo qual uma organização cria uma estratégia para implementar uma inovação tecnológica para melhorar seus negócios e atender às demandas em constante mudança do mercado digital. Os objetivos de uma transformação digital podem incluir ampliar o alcance da empresa, melhorar a eficiência operacional, mudar a cultura organizacional e a imagem da empresa, ou todas as opções anteriores. As práticas comerciais tradicionais são consistentemente testadas em face à evolução da tecnologia, e é importante que as organizações modernas reconheçam o potencial da tecnologia e aceitem quando o tempo para a mudança chegar.

 

A inovação pode parecer mais um luxo do que uma necessidade. Muitas empresas em todo o mundo normalmente afirmam que estão sobrecarregadas para explorar novas ideias, no entanto, no atual ambiente de negócios em constante mudança, uma organização não pode fazer o que sempre fez e ter plena convicção que a mudança não é necessária para prosperar ou até mesmo sobreviver. De produtos e serviços ao marketing, vendas e suporte, as organizações podem ter que mudar a maneira como abordam não somente uma destas áreas, porém todas as partes de seus negócios.