Você sabe quem são os profissionais de TI do Brasil?

Estudo exclusivo desvenda os maiores mitos da área de tecnologia

Thoran Rodrigues

16/04/2019

 

A área de tecnologia é uma das mais aquecidas do mercado de trabalho. Em praticamente todos os meios de comunicação e canais de discussão, fala-se sobre uma abundância de vagas de TI, especialmente de desenvolvimento de software, e sobre a falta de profissionais para suprir essa demanda. É passada uma imagem de que essa escassez de profissionais, associada ao excesso de vagas disponíveis, resulta em salários muito elevados e na proliferação de profissionais que não têm nenhum tipo de “lealdade” à empresa para a qual trabalham, trocando de emprego dezenas de vezes ao longo da carreira.

 

Diversos outros mitos são associados aos trabalhadores dessa área. São comuns os comentários de que “só há homens trabalhando com tecnologia”, ou que “o mercado privilegia os mais jovens”, especialmente os recém-formados, em detrimento dos mais velhos. Resolvemos, então, examinar cada um desses mitos por meio de dados, utilizando para o nosso estudo inédito e exclusivo informações estatísticas públicas para entender a real situação do setor.

 

Em nosso estudo, a identificação das empresas de tecnologia foi realizada por meio do seu código de atividade econômica. Consideramos como empresa de tecnologia qualquer empresa que tivesse pelo menos um código de atividade econômica relacionado com o desenvolvimento de software (CNAEs 62015-XX, 62023-XX, 62031-XX e 62040-XX). A referência para pesquisa dos CNAEs é o IBGE.

 

 

Em qualquer setor da economia, a maior parte das empresas existentes é de médio e pequeno porte. Na área de tecnologia não é diferente. Mais de 80% das empresas nesse mercado faturam menos de R$ 25 milhões por ano. Como essas companhias são as que respondem pela maior parte dos trabalhadores (e das oportunidades de trabalho), elas são o foco do estudo. É importante lembrar que as informações utilizadas a seguir são de origem pública, fornecidas por diferentes órgãos do governo, seja na forma de relatórios prontos, dados agregados, ou por meio de microdados anonimizados, que podem ser encontrados no portal dos dados abertos, ou em sites de órgãos específicos.

 

Perfil das empresas

 

As empresas com faturamento de até R$ 25 milhões abrangem mais de 85% do total de empresas dessa área no país. Essa distribuição mostra a sua importância na economia nacional. Além disso, boa parte do mercado de tecnologia do Brasil é formada por micro e pequenas empresas, geralmente de um único dono e sem funcionários, nas quais o fundador atua como um consultor ou desenvolvedor em projetos específicos para outras empresas.

 

 

Vemos claramente no gráfico acima que 85% das empresas nesse mercado não têm nenhum tipo de profissional contratado (empresa “sem vínculo”). Estamos falando da quase totalidade das empresas do setor, uma característica interessante do mercado de tecnologia, que sempre foi conhecido pela forte presença de profissionais independentes e freelancers que atuam no mercado.

 

Parte dessa distorção também é explicada pelos famosos “PJs”, funcionários que são contratados pelas empresas em um regime não tradicional e que acabam constituindo suas próprias empresas, individuais, para atuar no mercado. Para essa pesquisa, no entanto, resolvemos focar nas empresas com pelo menos um funcionário, tendo em vista o fato de que nosso objetivo central é entender melhor as características das pessoas que trabalham na área.

 

Mesmo olhando para esse conjunto menor de empresas, uma característica particular precisa ser ressaltada, porque influenciará boa parte das análises e discussões posteriores: a idade das empresas. É muito fácil pensarmos imediatamente em startups quando estamos falando de empresas de tecnologia pequenas, mas a verdade é que a maioria das empresas nesse grupo não são as que normalmente rotularíamos dessa forma. Na sua grande maioria, as empresas desse grupo têm cinco ou mais anos de idade (87% das empresas), o que nos mostra que muitas das empresas pequenas estão no mercado há bastante tempo. Para esse estudo específico, não fizemos nenhuma diferenciação entre empresas em diferentes estágios de vida, embora essa seja, talvez, uma quebra natural para estudos futuros.

 

Tendo selecionado esse conjunto de empresas, passamos para o mapeamento da análise de características sociodemográficas e comportamentais de quem realmente trabalha com tecnologia em seu dia a dia. Puxamos as informações dos trabalhadores dessas pequenas empresas do setor de tecnologia, independente da sua área de atuação ou da natureza do trabalho que realizam, para entender melhor as características do setor e validar se determinados “mitos” são verdadeiros ou falsos.

 

Mito #1 – Existem muito mais homens do que mulheres no setor de tecnologia

 

O primeiro e, talvez, o mais persistente mito sobre o mercado de tecnologia no Brasil — e no mundo — é de que esse é um mercado dominado por homens. A profissão principal dentro do mercado é a de desenvolvimento de software, derivada de uma área matemática, a qual é considerada como sendo majoritariamente exercida por homens.

 

Fizemos, então, uma quebra por gênero (masculino e feminino) das pessoas empregadas por esse conjunto de empresas, para entender não só se a distorção realmente existe, mas, também, para avaliar o tamanho dessa distorção frente ao mercado como um todo. A parcela de homens empregados representa 67,58%, enquanto as mulheres retratam 32,42% do total de profissionais nas empresas de médio e pequeno porte.

 

Como pode ser observado, existe, de fato, uma distorção na proporção entre homens e mulheres na força de trabalho das empresas. Pouco mais de 2/3 dos funcionários dessas empresas são homens. Contudo, essa proporção, por pior que pareça à primeira vista, não é tão distante da realidade do mercado de trabalho brasileiro em geral, no qual as mulheres representam pouco mais de 40% das pessoas empregadas.

 

Independente de esse desequilíbrio entre trabalhadores de sexos diferentes no setor de TI estar, ou não, próxima à realidade geral do mercado, permanece o fato de que a desproporção significativa entre homens e mulheres faz com que a área de tecnologia mereça a fama que possui. Pior. Esse desequilíbrio também resulta em problemas mais significativos, como a ausência de pontos de vista diferentes dentro das empresas para participar de discussões, sugerir novas abordagens e contribuir para a evolução da área.

 

A diversidade já foi confirmada em diferentes estudos como sendo um dos ingredientes mais importantes para o sucesso de longo prazo de equipes, empresas, e a economia como um todo. A falta de diversidade de gênero é um problema grave, que ameaça o setor de tecnologia do Brasil. Infelizmente, o mito da presença maior de homens do que de mulheres no setor de tecnologia é uma verdade.     

 

Mito #2 – Tecnologia é “um jogo para garotos”

 

Uma outra frase repetida continuamente é que o universo de tecnologia é dominado por pessoas mais jovens. O trabalho na área seria um “jogo para garotos”, no qual os mais velhos simplesmente não têm vez. Parte desse mito está relacionado com a própria curva de evolução acelerada da tecnologia pela qual estamos passando hoje. Na velocidade em que novas tecnologias e áreas de atuação tem surgido, é natural que se crie no imaginário popular a ideia de que apenas os mais jovens consigam acompanhar essas transformações.

 

Outra crença que reforça esse mito — independentemente de estar certa ou errada — diz respeito às longas horas e demandas associadas ao trabalho na área de tecnologia. Dada à percepção de uma carga de trabalho excessiva, muitas pessoas acreditam que apenas os jovens aguentam trabalhar no setor.

 

 

O gráfico acima mostra a distribuição dos funcionários das empresas de tecnologia por faixa etária. Podemos ver, novamente, que o mito se confirma, e pouco mais de 2/3 das pessoas que trabalham na área têm até 35 anos de idade, com o percentual caindo rapidamente para as faixas de idade mais altas. Da mesma forma que ocorre no caso da desproporcionalidade entre gêneros, essa concentração de pessoas mais jovens trabalhando nas empresas traz os mesmos problemas de falta de diversidade para o setor.

 

Parte do motivo da distorção de idade, no entanto, é a própria natureza da área. A falta de profissionais, que comentamos acima, faz com que muitos jovens procurem emprego em tecnologia já durante a sua formação, certos de que terão amplas oportunidades de emprego sem muita concorrência. Isso faz com que o fluxo de entrada de profissionais jovens no setor seja alto, o que puxa a curva de idade para baixo. Essa forte entrada de jovens no mercado é evidenciada pelo alto nível (16,01%) de profissionais com até 25 anos, os quais, em sua maioria, ou são ainda estudantes que já estão trabalhando, ou recém-formados.

 

Mito #3 – Os profissionais de tecnologia são “promíscuos” e não demonstram lealdade a nenhuma empresa

 

Talvez por causa da carência de profissionais no mercado, um outro mito da área de tecnologia é a falta de lealdade dos funcionários às empresas. Existem inúmeras histórias, seja aqui no Brasil ou em outros países, de profissionais que mudam de emprego a cada seis meses, pulando de oportunidade em oportunidade, para receber um salário um pouco melhor, ou mesmo porque um determinado projeto lhes parece mais atraente do que o que estavam envolvidos na a empresa onde se encontravam.

 

Resolvemos olhar para o tempo de emprego no emprego atual dos profissionais, chegando ao gráfico a seguir.

 

 

Como pode ser observado, mais de 80% dos profissionais estão há menos de cinco anos no mesmo emprego, o que pode ser um indicativo dessa chamada “falta de lealdade”. No entanto, existem outros fatores por trás desses números. Como vimos anteriormente, a maioria dos trabalhadores da área são jovens, e esses jovens, em grande parte, estão em seu primeiro emprego (ou segundo emprego, após um estágio ou aprendizado). Por si só, essa distorção de idade explica praticamente a totalidade da curva de distribuição de tempo de emprego.

 

Assim, a questão da lealdade é mais um mito do que uma realidade. Os trabalhadores dessa área são tão leais (ou desleais) quanto os de qualquer outra, buscando sempre boas oportunidades com uma remuneração justa. A diferença, no setor, é que, diferente de outras áreas, a abundância de oportunidades em tecnologia permite às pessoas uma maior liberdade nessa busca.

 

Mito #4 – Os salários de T.I. são os melhores do mundo

 

O quarto e último mito que resolvemos explorar nesse estudo é o da remuneração dos profissionais de tecnologia. Talvez por causa de toda a exposição na mídia das maiores empresas desse setor – em especial das multinacionais norte-americanas – criou-se uma imagem de que as empresas de tecnologia pagam os melhores salários do mercado, com o objetivo de atrair e manter seu corpo profissional, principalmente por causa da grande oferta de oportunidades no mercado.

 

Olhamos, por fim, para a distribuição da remuneração dos profissionais que trabalham nas empresas de tecnologia de médio e pequeno porte para ver se conseguiríamos realmente identificar salários desproporcionalmente maiores do que de empresas tradicionais. O gráfico a seguir mostra exatamente essa distribuição:

 

 

O que o gráfico nos mostra é que esse mito é parcialmente verdade. Por um lado, sim, os salários pagos por empresas da área de tecnologia são maiores do que os do mercado em geral. Isso fica evidenciado pela forma da “pirâmide” do gráfico, com uma proporção grande de pessoas com salários entre 2 e 10 salários mínimos (59.67%). Essa relação é bem maior do que no restante do mercado, o que significa que, sim, os salários da área de tecnologia são melhores do que os de outros tipos de empresa.

 

Por outro lado, a variação não é tão grande assim e boa parte dela pode ser explicada pela própria natureza das empresas de tecnologia, que tem como seu maior ativo o capital intelectual das pessoas que para elas trabalham. Exatamente por ser o principal ativo, as pessoas são o destino do investimento da maior parte do lucro dessas empresas.

 

Outro ponto importante é que, como em qualquer mercado, os maiores salários estão reservados à uma minoria de profissionais, em sua maioria em estágios mais avançados de carreira, em posições gerenciais ou executivas. Em qualquer área, em qualquer tipo de empresa, a pirâmide salarial está diretamente relacionada com a pirâmide de carreira e existem poucas posições de nível alto que comandam as maiores remunerações.

 

Conclusões

 

As empresas de tecnologia de médio e pequeno porte, com faturamento anual até R$ 25 milhões, representam uma fatia importante e extremamente relevante do mercado de tecnologia do Brasil, tanto do ponto de vista de geração de resultado quanto de geração de empregos. Olhando para características sociodemográficas dos profissionais empregados por essas empresas, conseguimos verificar que o discurso popular sobre a área de tecnologia resume alguns problemas profundos que precisam ser encaradas pelo setor e pela sociedade.

 

Talvez o maior desses problemas seja a falta de diversidade dos profissionais de tecnologia. Observamos nesse estudo essa falta de diversidade através de dois prismas, o do gênero e o da idade. É certo que existem outras concentrações – de raça, de nível educacional, geográfica – que também poderiam ser observadas por meio de outros cortes nos dados. Essa falta de diversidade é um problema grave, que pode levar à estagnação das empresas no longo prazo e deveria ser combatida ativamente pelos empreendedores e empresários do setor.

 

A ação, no entanto, não deve vir apenas das empresas, mas também da sociedade. Se já é amplamente reconhecido o fato de que a tecnologia e, em particular, a programação, são habilidades indispensáveis para os profissionais do século 21, deveríamos estar ativamente treinando os profissionais existentes nessas habilidades. Com a quantidade de profissões que estão rapidamente sendo automatizadas e substituídas por sistemas, e com a falta de profissionais de T.I. no mercado, a recapacitação parece uma saída natural para abordar os dois problemas, além de ajudar com a questão da diversidade dos profissionais.

 

Vimos também que, junto com o excesso de oportunidades, vem a melhora na remuneração. A falta de profissionais qualificados fez com que os salários pagos por empresas desse setor sejam consideravelmente maiores do que os praticados por empresas de outras áreas. Isso deveria naturalmente atrair mais pessoas para a área, gerando um equilíbrio no longo prazo. A falta de capacitação, no entanto, permanece uma barreira.

 

Como a tecnologia em si, as empresas que atuam com ela apresentam um conjunto de oportunidades e desafios extremamente interessantes para qualquer um que queira se aventurar por elas.