5G e o futuro o trabalho: o que esperar?

É consenso entre os especialistas que o setor de telefonia celular vai passar por uma das maiores transformações de sua história – e isso significa muitas oportunidades

Sergio Teixeira Jr., de NY

05/02/2020

Se no mundo corporativo é difícil encontrar termos mais hypados que inteligência artificial e robótica, entre os consumidores a próxima tecnologia da moda sem dúvida é o 5G, como são conhecidas as redes celulares de quinta geração. A euforia em torno das inovações tecnológicas sempre vem seguida por depressão (ou o “vale da desilusão”, segundo a definição do instituto de pesquisas Gartner, quando as novidades parecem não cumprir o prometido). Esse ciclo é inevitável no mundo da tecnologia digital.

 

 

Mas, quando se trata do 5G, a sensação é de que as expectativas são ainda maiores que o normal. As novas redes de comunicação sem fio, afinal de contas, não só terão altíssima velocidade e confiabilidade, como finalmente transformarão em realidade a Internet das Coisas e os carros autônomos, para ficar em dois exemplos.

 

 

Então logo de saída é importante que fique claro: ainda vai demorar um bom tempo para que o 5G atinja todo seu potencial. As redes que estão entrando em operação nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia (notadamente na China) estão batendo recordes de velocidade. Em teoria, as novas redes permitem downloads de até 20 gigabits por segundo, ou seja, um filme em alta resolução pode ser baixado em meros segundos.

 

 

Mesmo que esse tipo de performance seja teórico, as velocidades alcançadas hoje já permitem que as operadoras celulares entrem na competição pela banda larga doméstica. A Verizon, uma das pioneiras a oferecer o 5G nos Estados Unidos, calcula que sua rede vai estar disponível em 30 milhões de domicílios americanos nos próximos 5 a 7 anos. Em outras palavras: as operadoras de TV a cabo, que já vêm sangrando assinantes por causa dos serviços de streaming, verão um novo competidor pelo serviço de acesso à internet.

 

 

Essa reconfiguração do cenário competitivo dos provedores de internet será apenas uma das potenciais consequências em potencial do 5G. Outra característica das redes 5G é a baixa latência, ou seja, o tempo que os dados levam para viajar de um ponto a outro. Sistemas de baixa latência são cruciais para os carros autônomos.

 

Mas, antes de vermos veículos circulando por aí sem ninguém ao volante, essas novas redes vão permitir videoconferências de qualidade superior, com imagens em HD – nada daqueles momentos de silêncio ou de duas pessoas falando ao mesmo tempo. A baixa latência do 5G também vai permitir conexões de melhor qualidade com servidores corporativos. Em outras palavras, vai ficar mais fácil a vida de quem trabalha remotamente.

 

 

Os cenários descritos acima são mais evolucionários que revolucionários, é claro. As grandes transformações prometidas pelo 5G vão depender de grandes investimentos em infraestrutura. A Ericsson aponta que o impacto das novas redes celulares no setor de manufatura pode chegar a 113 bilhões de dólares em 2026. É claro que a empresa sueca tem todo o interesse em hypar a nova tecnologia: a companhia é uma das maiores fornecedoras do mundo de equipamentos para redes de telecomunicação. Mas é consenso entre os especialistas que o setor de telefonia celular vai passar por uma das maiores transformações de sua história – e isso significa muitas oportunidades de trabalho.

É consenso entre os especialistas que o setor de telefonia celular vai passar por uma das maiores transformações de sua história – e isso significa muitas oportunidades de trabalho

Isso será verdade para as operadoras e também para as empresas. A primeira onda da internet levou todas as empresas para a web; com os smartphones, vieram os apps; agora, as transformações no horizonte são potencialmente mais profundas. Com mais velocidade e confiabilidade e menor consumo de energia, os 20 bilhões de aparelhos e sensores em uso no mundo hoje, segundo o instituto de pesquisas Gartner, vão se multiplicar várias vezes e serão contados nas centenas de bilhões.

 

 

Isso vai permitir rupturas radicais nos negócios. Imagine eletrodomésticos que se comunicam em tempo real com o fabricante, transmitindo informações sobre seu funcionamento e indicando a necessidade de consertos antes que apareça um defeito. Ou equipamentos de fábrica capazes de se automonitorar, permitindo ganhos de produtividade até então só sonhados pelas companhias. O McKinsey Global Institute estima que esse tipo de tecnologia da Internet das Coisas vá gerar entre 3,9 trilhões e 11,1 trilhões em riquezas nos próximos cinco anos.

Muito disso serão aplicações que não existem hoje. Assim como a quarta geração das redes celulares, em conjunto com smartphones mais poderosos, deram origem a serviços como o Uber, o 5G deve trazer consigo uma série de novos negócios e carreiras. Enquanto a China claramente saiu na dianteira da nova geração das telecomunicações (os investimentos são considerados prioritários pelo governo do país), os consumidores brasileiros terão de esperar um bom tempo para sentir o impacto da novidade: o leilão das frequências das novas redes não deve acontecer antes do segundo semestre deste ano.

Assim como a quarta geração das redes celulares, em conjunto com smartphones mais poderosos, deram origem a serviços como o Uber, o 5G deve trazer consigo uma série de novos negócios e carreiras

 

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Outro ponto essencial, no Brasil e no resto do mundo, é a proibição das empresas americanas de utilizar equipamentos produzidos pela chinesa Huawei, líder indiscutível no que diz respeito às tecnologias 5G. (O governo do país afirma que a companhia estaria introduzindo “portas dos fundos”, ou seja, brechas para que as informações que trafegam pelas redes possam ser acessadas por espiões chineses). Os Estados Unidos vêm pressionando aliados do mundo todo a unir-se ao boicote.

 

 

Mas, recentemente, os britânicos afirmaram que vão aceitar o uso de equipamentos chineses em partes periféricas de sua rede 5G. Marcos Pontes, o ministro da Ciência e Tecnologia, também disse em entrevista recente que o Brasil não se deixará influenciar pelas pressões americanas no que diz respeito a sua infraestrutura de telecomunicações – ou seja, o país não deve impor restrições aos equipamentos chineses.

 

 

Essa discussão tem implicações que vão muito além da queda-de-braço entre as duas maiores potências econômicas do mundo. Existe o risco de que uma das características mais essenciais das redes 5G – a interoperabilidade global – seja comprometida. Em outras palavras, equipamentos que funcionam no 5G em Nova York, por exemplo, não serão capazes de se conectar no 5G de Xangai. Essa guerra de “padrões” pode ter impacto na utilidade das aplicações de 5G e também no mercado de trabalho. Existe a possibilidade real de que as carreiras se dividam, como no passado, entre VHS e Betamax, ou então entre Blu-ray e HD-DVD. Quem trabalha com tecnologia e telecomunicações deve ficar atento à disputa entre americanos e chineses.