Expansão da agricultura inteligente abre novas áreas para atuação

Entenda como Inteligência Artificial, Internet das Coisas e robótica terão impacto decisivo no agro daqui para a frente

Sergio Teixeira Jr., de Nova York

30/10/2019

Para produzir um hambúrguer de 120 gramas, são necessários 15 400 litros de água. Um quilo de alface precisa de 273 litros, e um quilo de batata, 287 quilos. Um quilo de pão consome 1 600 litros de água (80% dos quais são utilizados na plantação do trigo). Um quilo de queijo representa outros 5 000 litros de água. Com base nestes números, dá para ter uma ideia do impacto ambiental de um cheese-salada. Avanços tecnológicos do século 20 – em maquinário, fertilizantes e meteorologia, entre outros – permitiram que a maior parte da humanidade abandonasse a vida nos campos e trouxeram consigo uma das maiores mudanças de estilo de vida da história da humanidade. Mas lidar com os desafios da mudança climática e do crescimento populacional significam que a inovação na agricultura não pode parar.

 

Tecnologias de ponta como inteligência artificial, internet das coisas e robótica costumam ser associadas às conveniências da vida urbana, mas elas também terão impacto decisivo na chamada “agricultura inteligente” ou “agricultura de precisão”. Até bem pouco tempo atrás, o setor agrícola estava em último lugar na adoção da tecnologia digital, de acordo com um levantamento de 2016 do McKinsey Global Institute. Mas isso está mudando, e rápido. No ano passado, as startups de agritech receberam 16,9 bilhões de dólares em investimentos, um salto de 43% em relação a 2017. Até mesmo fundos de renome, como o Bill e Melinda Gates, que pertence ao fundador da Microsoft, estão interessados em transformar a agricultura.

A irlandesa Cainthus recebeu um investimento da gigante do processamento de grãos Cargill. A startup criou um sistema de reconhecimento facial de vacas – isso mesmo – para identificar comportamentos e consumo de ração, entre outras variáveis que podem influenciar a produção de carne e leite. O sistema identifica cada animal individualmente e envia um alerta para smartphone do fazendeiro caso haja sinais que indiquem doença. Ao longo do tempo, afirma a Cainthus, o sistema de machine learning aprende a maneira ótima de agendar a alimentação e o tempo que os animais passam confinados.

Até bem pouco tempo atrás, o setor agrícola estava em último lugar na adoção da tecnologia digital, de acordo com um levantamento de 2016 do McKinsey Global Institute. Mas isso está mudando, e rápido.

A análise de informações é essencial para a agricultura desde que o homem começou a plantar sementes na terra. Mas o desenvolvimento de sensores e robôs vai transformar para sempre essa tarefa, coletando dados mais precisos e com mais eficiência. O TerraSentia, um robô desenvolvido na Universidade de Illinois, com apoio do Departamento da Agricultura dos Estados Unidos, foi inspirado no Mars Rover, o veículo autônomo enviado a Marte. A função do robô de quatro rodas é perambular pelo campo para identificar doenças e medir diversas características da plantação, como altura, folhagem e massa. A demanda por robôs específicos para a agricultura vai crescer 24% nos próximos cinco anos, segundo o instituto de pesquisas Transparency Market Research.

 

As redes celulares de quinta geração, ou 5G, também prometem ter impacto na agricultura. A nova tecnologia promete realizar o potencial de sensores usados na agricultura, graças a melhorias na velocidade de transmissão dos dados e na confiabilidade e baixa latência das redes. Em um projeto piloto realizado na província chinesa de Zhejiang, tomates são cultivados em uma estufa repleta de sensores de luz, temperatura e umidade. As medições são enviadas por redes 5G para uma central de controle remota. “As redes 4G travavam com frequência, e muitas vezes precisávamos esperar para fazer a análise dos números. Com a rede 5G, os resultados são imediatos”, disse Zhao Yu, responsável pelo projeto, ao jornal South China Morning Post.

 

A revolução tecnológica da agricultura acontece não só no campo. Considere a Plenty, startup do Vale do Silício fundada há cinco anos. A empresa desenvolveu um sistema de produção de verduras indoor que tem uma produtividade 350 vezes maior que os métodos tradicionais, usando apenas um centésimo da água.

A análise de informações é essencial para a agricultura desde que o homem começou a plantar sementes na terra. Mas o desenvolvimento de sensores e robôs vai transformar para sempre essa tarefa.

As “fazendas” da Plenty são verticais e atingem até 7 metros de altura. O espaço que era ocupado por uma planta agora recebe até 40 delas. Câmeras e sensores monitoram as plantas, e as informações são analisadas por softwares para ajustar a iluminação artificial, a irrigação, os nutrientes e a umidade do ambiente. Segundo a companhia, nesse ambiente controlado é possível minimizar o uso de pesticidas. A “colheita” e a embalagem são realizadas por robôs. A ideia da Plenty é vender para supermercados e também diretamente para os consumidores.

 

Um dos segmentos que têm chamado mais atenção – tanto por parte dos investidores quanto dos consumidores – são as “carnes que não são carnes”. Os hambúrgueres de empresas como Impossible Foods e Beyond Meat já entraram para o cardápio de várias redes de fast food, e até mesmo o McDonalds está fazendo um piloto no Canadá com um hambúrguer imitação. A startup israelense Redefine Meat, entretanto, leva a ideia ainda mais longe. A empresa quer fazer bifes indistinguíveis do produto real em termos visuais e de textura e sabor, usando a tecnologia de impressão 3D. Segundo o fundador da Redefine Meat, Eshchar Bem_Shitrit, engenheiros mecânicos e cientistas de alimentos trabalham lado a lado no laboratório da companhia. O produto ainda não está disponível comercialmente, mas as refeições do futuro prometem ser muito mais interessantes – e cheias de tecnologia.