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Análise: estamos preparados para a era da superpersonalização?

Profissionais de todas as áreas precisarão entender melhor de nichos e atuar de maneira multidisciplinar para vencer no mercado

Análise: estamos preparados para a era da superpersonalização?

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Vitor Cavalcanti

Marketing, tecnologia, criação e desenvolvimento de produto. O que essas áreas têm em comum? Você pode até dizer que nada. Mas cada vez mais esses profissionais serão desafiados pelo desejo de superpersonalização dos consumidores. E isso afeta essas e algumas outras carreiras. Não há dúvida de que todos precisarão lançar mão de subterfúgios para entender a realidade e entregar a melhor experiência possível para quem está do outro lado. Logicamente, tudo trabalhado em linha com um belo plano estratégico da empresa.

 

Aquela expressão sempre tão utilizada para falar de inovação, ‘pensar fora da caixa’, volta com força total nesse cenário. Pense, por exemplo, na marca Porsche. Afunile um pouco e tenha em mente os proprietários de clássicos da montadora, incluindo aquelas raridades de colecionadores. Dificilmente você associaria esse seleto clube com blockchain, e foi exatamente o que pensou Matthias Hub, gerente de TI da Porsche e também responsável pelo que eles chamam de prototipagem de software.

 

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Hub foi atrás de Jan Karnath, fundador e CEO da Gapless, uma plataforma baseada em blockchain pensada em manter registro de coisas físicas que as pessoas amam e gostariam que sobrevivessem a gerações, entre elas, carros. Da ideia à prática, eles, em conjunto, bolaram um aplicativo onde é possível emitir um certificado de autenticidade para o superclássico Porsche. Ok, qual a vantagem e o que tem de novidade? “Esses carros são muito caros e queríamos que essa comunidade tivesse provas de autenticidade do veículo, como títulos de proprietário. Com isso, além de mostrar que ele realmente tem uma peça legítima sem qualquer tipo de falsificação ou mudanças, ajudamos seguradoras, que passam a confiar nos pedidos de coberturas, facilitamos o trabalho da polícia em caso de roubo e damos segurança ao comércio desse tipo de automóvel”, comentou Hub.

Não há dúvida de que todos precisarão lançar mão de subterfúgios para entender a realidade e entregar a melhor experiência possível para quem está do outro lado

Eles trabalham com a plataforma desde abril e já são 50 mil carros cadastrados no Reino Unido, na Alemanha e nos Estados Unidos. Mas se você acha que a aventura da Porsche com blockchain para por aí, eles trabalham, no momento, num projeto para que o carro seja cada vez mais uma plataforma, pagando desde estacionamentos a serviços do entorno onde o proprietário circula, num modelo que desafia por exemplo, o mercado de tags, como o SemParar. “A beleza do modelo descentralizado de blockchain é que te permite criar e pensar em várias coisas. Estamos explorando e não limitados a essas duas iniciativas”, completou. Usando tecnologia e criatividade, Hub, que é um engenheiro de software, consegue desafiar a lógica e se mostra pronto para esse mundo em transformação, buscando dentro do seu mundo técnico possibilidades para o cliente final.

 

Lamborghini

 

Na mesma pegada de oferecer serviços cada vez mais segmentados, durante uma discussão sobre perspectivas do marketing para 2020, Katia Bassi, CMO da Automobili Lamborghini, bateu muito na tecla do acolhimento do cliente e de trabalhar dados de forma mais inteligente, dando uma mensagem cada vez mais personalizada e, assim, satisfazendo o desejo de clientes exigentes. “Atualmente, 32% dos nossos clientes têm menos de 40 anos e o que eles querem é formar parte de uma grande família. É importante para eles que não sejam apenas um número. Quando compram uma Lamborghini, eles querem ser da família, querem uma relação diferente do que tradicionalmente as marcas oferecem”, explicou. “Apesar de sermos uma marca global, somos focados em pessoas e uma estratégia de marketing informal acolhe e inclui o cliente de uma maneira diferente”. Todo o trabalho que Katia lidera à frente da montadora gira em torno do uso da tecnologia para acelerar os passos do marketing e tornar as decisões e estratégias mais acertadas. Marketing sem tecnologia não trabalha o cliente e padece.

E já que os dois primeiros cases do mundo da personalização são de carros, noutro painel, esse focado em discutir mobilidade urbana em 2025, Sam Zaid, CEO e fundador da Getaround, um marketplace de compartilhamento de veículos subutilizados, afirmou acreditar que, com todos os problemas que a posse individual do carro traz para os grandes centros urbanos, serviços personalizados ainda vão pipocar. Ele entende que a relação de posse ainda mudará muito, chegando a um ponto onde a pessoa pensa: ‘quero ir ao shopping fazer compras, então, preciso de um carro por duas horas’. E loca o veículo para isso. Toda a mobilidade deverá ser convertida em serviços disponíveis a partir de um smartphone, assim como já acontece com patinetes e bicicletas, mas ganhando inteligência, integração e, personalização da experiência.

 

Futuro do trabalho

Embora os cases coletados durante o Web Summit 2019 estejam ligados a marcas de luxo que, por razões óbvias, buscam uma entrega diferente para seus clientes, essa jornada pela personalização está cada vez mais presente. Se você parar para pensar um pouco, provavelmente, já se viu em situações onde esperava um atendimento, produto ou serviço de maneira totalmente distinta da que lhe foi oferecida. O mundo nos força para esse desejo e esse desejo transforma o mercado de trabalho. Assim, precisamos estar preparados para trabalhar e atender esse tipo de anseio.

 

Durante uma das discussões sobre futuro do trabalho, Polina Montano, co-fundadora da JobToday, destacou que não é pessimista sobre o fechamento de posições de trabalho por conta de automação, ou mesmo com a quantidade e/ou variedade de novos empregos, mas, acertadamente, se preocupa muito em como “prepararemos essas pessoas para o novo, como ensinaremos coisas novas a essas pessoas com foco em economia digital”.

 

Mas a frase matadora e que tem total relação com o título deste artigo e com a dinâmica do mercado de maneira geral é a demanda que ela enxerga para os próximos anos: “veremos uma busca muito grande por profissionais especializados em nichos e subsetores para entregar a melhor experiência possível para grupos específicos”, pontuou, chegando, assim, à ultrapersonalização da experiência. E aqui fica um alerta gigante: os profissionais generalistas precisarão correr ainda mais para surfar nessa onda que emerge. Isso esbarra em tudo, até no mercado de influenciadores, onde muitas marcas já buscam por microinfluenciadores na expectativa de resultados mais efetivos.

 

A afirmação de Polina também se relaciona, como lembrou David Yang, fundador e chairman da ABBYY, com o fato de as pessoas não curtirem trabalhar com atividades repetitivas, abrindo, assim, espaço para automação desse tipo de trabalho, deixando os profissionais mais livres para atuarem com criatividade, que, além de conhecimento em tecnologia, está entre as habilidades mais demandadas atualmente.

 

Então, se você quer ser relevante na sua empresa atualmente, entenda melhor os clientes e veja se há nichos para serem trabalhados ou mesmo oportunidades de personalizar a experiência oferecida atualmente; estude tecnologia, ela te fará falta, mesmo que você não queria ser um cara de TI; se envolva em atividades que estimulem a criatividade, isso te ajudará a sair do mundo comum e criar uma visão holística do que acontece na sua empresa e/ou setor; por fim, se atualize sempre que puder, lendo sites como IT Trends, focado em desenvolvimento de carreira, livros e participando de eventos onde, além das palestras, sempre existem pessoas interessantes com quem você poderá aprender algo.