As grandes empresas amam startups. Ou não?

Pesquisa ajuda a entender como o mercado lida com este ecossistema
01/04/2019

Talvez você não tenha ouvido falar de Henry Chesbrough, mas com certeza conhece o termo que ele cunhou pela primeira vez há quinze anos. Ele foi o criador do conceito de “Open Innovation” (Inovação Aberta) e seus insights criaram novos parâmetros para o desenvolvimento de negócios. O termo foi citado pela primeira vez no livro “Open Innovation: The New Imperative for Creating and Profiting from Technology”, em 2003, e até hoje a prática ainda não é amplamente aplicada nas grandes organizações.

 

A inovação aberta pressupõe que as empresas podem e devem usar ideias externas, bem como ideias internas, à medida que buscam avançar em pesquisa e desenvolvimento. Existem dois tipos importantes de inovação aberta: outside-in e inside-out – também referidas como inovação aberta de entrada e saída, respectivamente. A inovação aberta de entrada envolve a abertura da inovação de uma empresa para muitos tipos de contribuições externas. Uma das formas de gerar esse tipo de contribuição é por meio de parcerias e aproximações com startups.

 

Startups são empresas em fase inicial que desenvolvem produtos ou serviços inovadores, com potencial rápido de crescimento. O termo startup deve muito de sua popularização às empresas ligadas ao segmento da tecnologia criadas no Vale do Silício (na Califórnia). No Brasil, o ecossistema também tem provado seu valor. Surgiram os primeiros Unicórnios — termo dado às startups que passam a valer mais de US$ 1 bilhão — e a atenção dos investidores foi conquistada. As três primeiras startups brasileiras que conseguiram chegar ao status de Unicórnio são 99, PagSeguro e Nubank.

 

Mas, mesmo com a popularidade em alta no país, as startups ainda não recebem atenção da maioria das grandes empresas. Apenas 17,4% dos CIOs ouvidos pela última pesquisa “Antes da TI, a Estratégia”, de 2018, afirmam que suas empresas convidam proativamente startups que apresentam soluções com potencial de aplicação no negócio e, em alguns casos, até estabelecem parceria. Um percentual ainda menor (16,6%) permite que algumas startups procurem a companhia para apresentar suas soluções proativamente.

O resultado pode ser atribuído ao fato que as grandes marcas, em geral, têm medo de falhar. Por isso, se defendem do risco que as ideias trazidas por startups podem oferecer. Outra possibilidade é que estejam apenas vendo as empresas como possíveis concorrentes, e não como potenciais parceiros. Uma pesquisa da Dell Technologies de 2016 mostrou que 78% das empresas acreditam que as startups digitais representam agora ou representarão no futuro uma ameaça a seus negócios. E esse fenômeno, de acordo com o Digital Business Research Index, que entrevistou 4 mil líderes de empresas de médio e grande porte em 16 países, incluindo o Brasil, está impulsionando as organizações inovadoras e acelerando o declínio de outras.

 

Porém, há uma minoria que está superando os medos e indo além: não só está se aproximando das startups, como também criou um espaço para que elas possam desenvolver novas soluções em conjunto, criando ambientes eficazes de inovação e networking. Somente 5,9% adotam essa política que, além de fomentar a inovação aberta, também estimula todo o ecossistema.

 

Uma das iniciativas mais notáveis e conhecidas no sentido de criar espaços para as startups no Brasil é o Cubo, espaço de fomento ao empreendedorismo criado pelo Itaú Unibanco e pela Redpoint eventures. O objetivo é conectar em um só lugar empreendedores, grandes empresas, investidores e universidades para discutir sobre tecnologia, inovação, novos modelos de negócios, novas formas de trabalhar e como desafiar o status quo atual.

 

Para que uma startup seja residente ou membro do Cubo, ela precisa oferecer uma solução com potencial de escala que já tenha sido testada por clientes. No espaço, são realizamos, em média, quatro eventos por dia sobre inovação, tecnologia, estratégia de negócios, entre outros temas. Na mesma linha, há também o InovaBra Habitat, espaço de inovação do banco Bradesco, onde empresas, startups, investidores, mentores e empreendedores geram novos negócios e buscam soluções inovadoras com base no networking e na colaboração. Entenda melhor como o tema startups tem sido enfrentado pelas empresas brasileiras:

 

 

 

Quando analisamos estes dados segmentados por setor, o que mais tem se destacado na aproximação com startups é a chamada indústria digital: empresas de TI e telecomunicações como fabricante de produtos e serviços de TI, callcenter e BPO. Este setor é responsável por 8,3% do total de empresas que afirmam ter criado espaço para startups desenvolverem soluções, convidar proativamente startups que apresentem soluções com potencial de aplicação ao negócio, possuir processos de identificação de startup ou, pelo menos, permitir que startups procurem a companhia.

 

Em segundo lugar na lista dos setores que mais estão próximos das startups estão, empatados, os segmentos de agronegócios, varejo, indústria automotiva e saúde.  Os Bancos, responsáveis por iniciativas citadas anteriormente como Cubo e InovaBra Habitat, entre outros, vêm em seguida, com 6,1% do total.

 

Estamos evoluindo?

 

Mesmo com representatividade ainda pequena, as iniciativas junto às startups já mostram uma evolução do mercado. Ao analisar o comportamento histórico das grandes empresas americanas ao longo do século XX, Chesbrough, citado no começo do texto, percebeu que o modelo de gestão da inovação utilizado na época era bastante fechado no que se refere ao surgimento das ideias e sua aplicação no mercado. Havia certa arrogância na postura, algo como “nós detemos os melhores talentos e, portanto, nossas ideias são melhores que as dos demais”. A pesquisa mostra o quanto o cenário está mudando.

 

Entendendo que existe uma probabilidade de sua empresa não estar viva nos próximos dez anos, executivos começam a pensar na inovação como prioridade, e em como criar formas de inovar de maneira mais rápida e mais ousada. Outra pesquisa (As 100 Mais Inovadoras no Uso de TI, também de 2018) mostra que 39,5% das empresas entendem a inovação como parte importante no desenvolvimento do negócio e, ainda, afirmam que existem planos consistentes para seu tratamento, assim como incentivos para que todos os colaboradores tragam novas ideias de produtos, serviços, processos, entre outros. Por outro lado, as empresas que acreditam que inovação não é importante para o negócio, não chegam nem a 1,0% do total.

 

Inovação como pilar para o processo de transformação

 

 

 

Empresas e governo concordam: é preciso inovar

 

Segundo o Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), governo e empresas investiram R$ 76 bilhões em inovação em 2015, o equivalente a 1,28% do Produto Interno Bruto (PIB). Público e privado entraram com exatos 0,64% cada — primeira vez que o nível empata. É a maior participação da inovação em relação ao PIB da série histórica iniciada em 2000.  Ainda assim, há bastante chão até que o país alcance os 2,3% médios investidos por países que compõem a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

 

O setor privado, no entanto, parece estar fazendo a sua parte, de acordo com as pesquisas feitas pela IT Mídia. Com base no orçamento destinado à TI, os CIOs apontam que o percentual direcionado à inovação e novos projetos é, em média, de quase 30% do total (29,85%) em 2018. Além disso, quase metade das empresas (43,9%) veem a TI como estratégica.

 

 

 

 

 

 

 

Como podemos ver no gráfico acima, atualmente quase metade do investimento de TI no Brasil ainda é voltado para a operação e manutenção da infraestrutura (44%), que é base para as organizações conseguirem manter seus ambientes tecnológicos trabalhando de forma estável e segura.

 

A conclusão é que o mercado brasileiro está sofrendo uma gradual mudança de percepção sobre o real valor que a inovação possui na rentabilidade — e sobrevivência — dos negócios. Esse alicerce, somado à mudança no mindset dos executivos das empresas sobre a questão da inovação como um ativo estratégico, oferece uma visão positiva sobre o futuro e a competitividade das companhias brasileiras.