Como smart cities serão influenciadas pela pandemia?

IT Trends traz as visões de um pesquisador e de um executivo do mercado sobre as novas cidades

Tiago Alcantara

03/07/2020

Pode ser surpreendente ler isso em julho de 2020, mas não é a primeira vez que uma doença ou pandemia muda completamente o cotidiano e planejamento urbano. Mas, a ideia aqui não é falar do passado e sim do presente e de como ele pode moldar o futuro. Vamos aos fatos: as grandes cidades atuais possuem uma quantidade muito maior de formas de capturar e processar dados. Assim, não é exagero apontar que a cenário deve influenciar as smart cities em um futuro não muito distante.

 

Se, basicamente, as grandes cidades se tornaram grandes geradores e armazenadores de dados, a forma como essas informações são processadas se torna estratégica. De acordo com alguns pesquisadores, uma visão mais centrada em data science pode ser um dos grandes legados da crise. Além de iniciativas em áreas específicas, como iluminação pública e segurança, o compartilhamento desses dados também requer cuidados com a privacidade dos cidadãos.

A reportagem da IT Trends listou algumas das mudanças que podem chegar em uma cidade não muito distante de você.

 

Impacto inicial: Home office

 

Uma das mudanças imediatas da pandemia aconteceu no mundo corporativo. Uma parte da força de trabalho teve suas atividades transferidas para o sistema remoto – alguns nem devem voltar a se reunir em grandes escritórios tão cedo.

 

Para o professor e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Fabio Duarte, esse primeiro momento mostrou que tecnologias para atividades remotas passaram pela prova de fogo. E, na sequência pós-crise, devem ter influência na organização mais inteligentes das cidades. “Nenhuma cidade foi planejada para isso. É uma situação nova no mundo todo. O que precisamos saber é como isso poderá ser incorporado nas cidades do futuro. Se pessoas forem se deslocar menos, precisamos ter menos espaço de rua dedicados a estacionamento, mas mais espaço para parques e áreas de lazer distribuídos pelas cidades”, explica Duarte.

 

 

Para o diretor de vendas e líder do segmento de setor público da Cisco, Ricardo Mucci é importante definir o que seriam as tais smart cities ou cidades inteligentes. O executivo explica que a multinacional está envolvida com uma série de projetos em municípios brasileiros e divide essa definição de “cidade inteligente” em três partes.

 

“Primeiro, é uma cidade que tem a possibilidade de fornecer elementos que facilitem a vida do cidadão. Segundo: é aquela que tem a capacidade de capturar, gerir e transformar dados, trazendo as informações e gerando um arcabouço com informações para tomada de decisões por parte dos gestores. Por fim, uma cidade inteligente é uma cidade que consegue por meio de sua inteligência, disponibilizar dados que atraiam empresas para dentro do seu núcleo”, comenta Mucci.

 

“A gente já vê muitos clientes, inclusive o governo, repensando sua visão de como vai ser [o trabalho] depois dessa pandemia”, afirma o executivo da Cisco. Ele ainda acredita que, de fato, a situação deve acelerar muito os processos de uma forma geral. Isso significa que a partir do momento em que o home office for implementado em situações normais e de forma ampla, deve haver um ganho de produtividade.

 

Mudanças na estrutura das cidades

 

O professor da PUC-PR e do MIT faz questão de frisar que “as cidades não vão mudar de um dia para o outro”. No entanto, o pesquisador lembra que existe uma rede praticamente invisível operando sem que o cidadão perceba. usando como exemplo algumas reações ao Covid-19, lembra que sinais de GPS e rede móvel podem ajudar a entender a disseminação da doença e identificar aglomerações.

 

“Vimos que os smartphones coletam informações como nossa localização e, portanto, proximidade entre pessoas, que é instrumental para se entender a propagação da doença. O único risco é que rastrear movimento de pessoas se estenda para depois da pandemia, criando um estado permanente de vigilância”, argumenta Duarte. Assim, a maior transformação das cidades não é tanto física e sim uma estrutura invisível.

 

O executivo da Cisco concorda com a posição de Duarte: o caminho até termos cidades inteligentes ainda é longo. A começar pelo abandono do papel em cidades e estados. “A gente ainda vê uma modernização do estado ou do município, onde ele vai transformar os seus projetos, saindo do papel e indo para o modelo digital. Cada vez mais serviços são disponibilizados e não há nada a ser inventado, tudo está disponível hoje no mercado”, comenta Mucci.

 

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Cidades do futuro: menos ficção e mais política

O aspecto de logística também foi fundamental para a resposta à propgação do novo coronavírus. O pesquisador do MIT lembra que, enquanto algumas soluções tecnológicas já estavam disponíveis e foram só adaptadas rapidamente, outras tiveram que ser totalmente desenhadas para a situação. E podem ser usadas como exemplo no futuro.

 

“O esforço global em se criar ventiladores com desenhos abertos que podem ser impressos com impressoras 3D em qualquer lugar, sem precisar exportar esse equipamento — o que dá mais velocidade necessária para se obter o produto — e também reduz custos econômicos e ambientais de transporte”, lembra Duarte.

 

Um aspecto relevante na discussão é que o modelo comercial das smart cities ainda é um problema, de acordo com o executivo da Cisco. Ele explica que a transformação digital e aplicações de novas tecnologias ainda são focados em alguns nichos, como iluminação pública, por exemplo. Segundo Mucci, “as cidades que conseguirem disponibilizar serviços digitais são aquelas que vão se tornar cada vez mais atrativas em trazer profissionais ou a nova indústria”, principalmente nesse conceito de startup”.

 

No Brasil, além de algumas ações isoladas feitas pelos municípios, o projeto Inteligência Artificial Recriando Ambientes (IARA) é uma rede para o desenvolvimento de cidades inteligentes, reunindo universidades, governos e a iniciativa privada. A ideia é integrar as diversas linhas de pesquisa para modelos inteligentes de cidades. O conhecimento sobre temas como mobilidade, segurança, saneamento, lazer e outros será compartilhado entre academia, empresas e governos dos estados participantes (Pará, Maranhão, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso do Sul).

 

Para complementar a questão, Fabio Duarte pesa dois momentos históricos: a pandemia e o movimento Black Live Matters (Vidas Negras Importam, em tradução livre), que clama por justiça social e foi despertado após a morte violenta de um cidadão norte-americano negro pela força policial de Minneapolis.

 

“Em paralelo temos dois momentos fortes: pandemia e o Black Lives Matter. Eu suspeito que, daqui 20 anos, as grandes mudanças que vão ter acontecido na sociedade vão ser menos em função da pandemia e mais em função do movimento da consciência do preconceito racial que vem marcante a sociedade norte-americana e brasileira por séculos”, afirma o professor brasileiro do MIT.