Empreendedorismo social: negócios digitais lucrativos que fazem o bem

É possível criar empresas que causam impacto positivo na sociedade e também são lucrativas. Conheça os exemplos e saiba como

Françoise Terzian

15/10/2019

Se o empreendedorismo social tivesse outro nome, muito provavelmente ele se chamaria Muhammad Yunus. O ganhador do Prêmio Nobel da Paz e pai do microcrédito, é a mente por trás de cerca de 50 negócios sociais. Um deles, o mais famoso, é o Grameen Bank, que subverteu a ordem mundial bancária ao fornecer pequenos empréstimos para os pobres, sem as garantias e exigências tradicionais dos bancos comerciais. O sonho virou realidade e, hoje, o Grameen Bank tem mais de 8,4 milhões de mutuários (97% mulheres) e desembolsa mais de US$ 1,5 bilhão por ano.

 

Décadas depois desse inspirador case, o mundo surfa na onda do empreendedorismo social, um negócio em alta feito para dar lucro e causar impacto positivo na sociedade. Ou seja: ganhar dinheiro e, ao mesmo tempo, mudar o mundo. “O empreendedor que entra nessa não pode ser missionário nem mercenário”, ensina Ronaldo Tenório, mentor e co-fundador da Hand Talk e eleito pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology) um dos 35 jovens mais inovadores do mundo.

O mundo surfa na onda do empreendedorismo social, um negócio em alta feito para dar lucro e causar impacto positivo na sociedade

As startups financeiramente boas e geradoras de amplo benefício social são crescentes, afirma Gustavo Di Risio, professor de empreendedorismo da FIA. As possibilidades de se empreender nessa área são infinitas. Por isso, avançam no Brasil em áreas diversas e em ambientes mais carentes como os das comunidades, que sentem na pele os desafios do dia a dia.

 

De ideias boas e com mercado para ser explorado, Di Risio destaca, como exemplo, a EuVô, primeira plataforma digital de transporte acessível para pessoas com mobilidade reduzida). Com motoristas treinados para este fim, ela nasceu em 2017 em São Carlos, no interior de São Paulo.

 

Agora, ela chega à capital paulista, após receber o aval da Prefeitura de São Paulo para operar na capital paulista. “Não é assistencialismo, é inclusão. A pessoa paga pela passagem. Assim, o passageiro torna-se independente para ir num almoço, numa consulta, sem depender de pai, filho, vizinho. Esse é um caso de empreendedorismo social”, conta Di Risio.

 

O caminho é promissor para as gerações futuras. “O empreendedorismo social te coloca dentro do sistema e não à margem dele. Por promover um engajamento coletivo e colaborativo, ele encontra-se em alta”, afirma Carolina Costa Resende, professora da PUC Minas Gerais e coordenadora do curso de especialização em Empreendedorismo Social.

Para empreender nessa área e ter sucesso é preciso ter carisma e empatia, além de competência e visão de mercado

O sucesso para empreender nessa área, explica a acadêmica, é bastante complexo, uma vez que requer carisma e empatia da sociedade civil. Ao mesmo tempo, pede competência e visão de mercado do empreendedor, que precisa entender do mercado, do negócio, do produto/serviço e também ter habilidade social, inteligência emocional e espírito para trabalhar coletivamente.

 

Segundo Vinícius Picanço, professor de operações e design do Insper, há várias tribos no mundo do Negócio Social, feito para gerar lucro e promover impacto social ou socioambiental. “Tem gente que segue Yunus, defensor de que todo ganho do negócio social seja reinvestido na empresa. Outra vertente acha que não, que o lucro deve ser distribuído pelos acionistas”, explica Picanço.

 

Seja qual for a crença, o empreendedorismo social encontra no Brasil uma gigantesca oportunidade. Motivo: a deficiência do país em inúmeras áreas como as social e ambiental. “Problema aqui no país não falta. É algo ruim, mas bom para quem quer empreender nessa área” admite Picanço.

 

Diante de tantas oportunidades para empreender, o professor do Insper diz que um nicho de forte aposta na atualidade é o da economia circular – conceito que repensa o mundo moderno, do design de produtos à forma que os consumimos, preocupando-se assim com os resíduos e a poluição.

 

Eis que aí entram projetos focados no manejo de resíduos, no design de produtos concebidos sem prejuízo ao meio-ambiente, na reciclagem, dentre tantas outras questões a serem pensadas e repensadas. “Há uma explosão de startups nessa área”, observa Picanço.

Hand Talk, Eu Reciclo, B2Blue, Boomera e EuVô são alguns exemplos de empreendedorismo social. A Hand Talk, cujo aplicativo foi eleito pela ONU o melhor app social do mundo, disponibiliza para empresas o Tradutor de Sites, textos e vídeos para a língua de sinais

Cases para se inspirar? Ele recomenda espiar negócios como o Eu Reciclo, B2Blue e Boomera. Outra startup de empreendedorismo social para se inspirar que nasceu para ajudar os deficientes auditivos é a Hand Talk. Problema: cerca de 80% dos surdos do mundo não compreendem bem as línguas faladas em seus países. A maior parte deles é alfabetizada em línguas de sinais e depende delas para se comunicar.

 

Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 360 milhões de pessoas possuem deficiência auditiva no mundo – 10 milhões delas brasileiras. No Brasil, a língua utilizada pela comunidade surda é a Libras, reconhecida por lei como língua oficial do país junto com o português. Sendo este um idioma basicamente fonético, seu aprendizado por parte dos surdos se torna mais difícil.

 

Mais desafiador ainda é olhar para o momento atual, da falta de acessibilidade digital em Libras, que faz com que a internet esteja praticamente offline para uma parcela significativa da população, que não consegue consumir qualquer tipo de conteúdo ou comprar online. Apesar de ser obrigatória por lei desde janeiro de 2016, quando a Lei Brasileira de Inclusão entrou em vigor, a acessibilidade digital ainda está longe de ser uma realidade no país. Apenas 2% dos sites brasileiros estão acessíveis.

 

Foi com essa visão do problema que nasceu a Hand Talk, cujo aplicativo foi eleito pela ONU o melhor app social do mundo. Ela disponibiliza para as organizações o seu Tradutor de Sites, uma ferramenta que resolve o problema com um simples clique de um botão. Após a ativação da janela de acessibilidade do Tradutor, o usuário é apresentado ao Hugo, intérprete virtual que faz a tradução dos textos e vídeos para a língua de sinais. Os sites que contam com a tecnologia passam a abrir as portas para um público de milhões de pessoas de forma inovadora e socialmente responsável, dando autonomia para seus usuários surdos.

 

“Quando fundamos a Hand Talk em 2012, recebemos um investimento anjo simbólico não tão grande, que fez com que a gente contratasse as primeiras pessoas e lançasse aplicativo no ano seguinte”, recorda Tenório. “Naquela época, a gente não sabia da dimensão do que poderia se tornar o aplicativo. mas sabia da existência do problema e a vontade de fazer aquilo acontecer.”

 

Hoje, a Hand Talk é mais que um app. Trata-se de uma plataforma que faz traduções automáticas para a língua de sinais. O aplicativo, como define Tenório, é um Google Tradutor dos surdos com mais de 2,5 milhões de downloads. E ainda há o plugin que torna o site acessível.

 

Do ponto de vista de negócio, Tenório aconselha novos empreendedores sociais que é preciso saber dosar bem a balança. “Negócio social sem impacto não é social. E sem lucro não é negócio, mas uma ONG. O grande desafio é manter balança equilibrada e criar um modelo de negócio sustentável.”

 

Por isso até, o modelo de negócios da Hand Talk é baseado em serviço de assinaturas para empresas – 300 hoje, entre médias e grandes como Samsung, Magazine Luiza, Avon e Bradesco. O próximo passo? “A gente já está trabalhando forte para lançar a solução nos EUA no início em 2020”, promete Tenório.

 

Tecnologia e barreiras

 

A Tecnologia da Informação, claro, permeia todas essas startups do empreendedorismo social. Ela é fundamental para a operação do negócio. “Hoje, tem muita tecnologia barata e até de graça disponível para colocar uma startup para funcionar e ajudar a atingir um cliente ou mesmo comercializar”, conta Di Risio.

 

Hoje, com a disseminação de diferentes ofertas de serviços tecnológicos, o custo caiu. “Tem muita coisa aberta, open source, graças à comunidade de desenvolvedores que trabalha muito em conjunto”, lembra Picanço.

 

No entanto, se a tecnologia barateou, o custo da mão de obra só sobe dada a disputa das startups por talentos em TI e Internet das Coisas (leia-se entendidos em hardware, sensores e radiofrequência). “O grande gargalo para startups é a contratação de talentos. No geral, a tecnologia é acessível e a mão de obra cara”, pontua o professor do Insper.

 

Apesar de crescente e irreversível, colocar em prática o empreendedorismo social não é algo fácil. A primeira razão é que o nicho de mercado parecia nebuloso até pouco tempo atrás. A segunda é que nem sempre é fácil encapsular uma solução lucrativa em torno de um problema social.

 

É mandatório que o empreendedor mergulhe em questões como relação com governo, com as ONGs, com outras empresas. O professor do Insper diz que esse estudo leva tempo, custa dinheiro e demanda esforço. Nem sempre os modelos de negócios pensados são fáceis e lucrativos.

 

Por onde começar?

 

  • Defina pelo que você é apaixonado.
  • Pesquise e descubra as lacunas nos produtos e serviços existentes ou inexistentes e com problemas latentes.
  • Determine como você pode preencher essas lacunas.
  • Identifique seus pontos fortes e habilidades e defina como eles podem servir na sua missão.
  • Identifique suas fraquezas, para que você saiba a quem pedir ajuda.
  • Defina um modelo de negócios que possibilite a monetização.