Gig Economy vai mudar a forma como você trabalha

Trabalhos autônomos sempre existiram. Mas, em plena era da Transformação Digital, ganharam outra dimensão. Entenda

Françoise Terzian

10/09/2019

Um designer gráfico realiza, remotamente, trabalhos como freelancer. Um professor trabalha como Uber nos fins de semana. Uma dona de casa vende Avon nas redes sociais. Uma aposentada compartilha fotos de peças em tricô em um marketplace virtual que incentiva trabalhos autorais. Em comum, todos eles fazem parte de um movimento crescente e irreversível batizado de Gig Economy, também conhecida por Economia de Plataforma, Economia Ponto a Ponto ou Economia Freelance.

 

Trabalhos autônomos sempre existiram. Mas, em plena era da Transformação Digital, ganharam outra dimensão. Hoje, graças às plataformas tecnológicas, trabalhos não convencionais avançam em todo mundo. A tecnologia surge como facilitadora para aproximar oferta e demanda, vendedor e comprador. “Hoje, se você não quiser sair de casa para ir ao supermercado ou à farmácia, você se conecta a um aplicativo e resolve. É uma característica de consumo que vai afetar todas as áreas”, avisa Caio Bianchi, coordenador do Digital Business Lab (DB Lab) da ESPM.

 

A Gig Economy ainda encontra-se em estágio inicial de desenvolvimento. Uber e outros aplicativos de solicitação de veículo, assim como o Airbnb, são os exemplos iniciais dessa nova economia por facilitarem transações diretas entre consumidor e produtor, permitir trabalho flexível e pagamentos online. Especialistas acreditam que, mais cedo ou mais tarde, esse conceito acabará atingindo praticamente todas as profissões. E também criará inúmeros outros modelos de negócios.

 

“Ainda mais na economia brasileira, na qual é difícil conseguir emprego formal que atenda às necessidades do empregado e do empregador”, afirma Juliana Inhasz, coordenadora de graduação em economia do Insper. De um lado, o profissional vende seu trabalho pontual para um projeto, enquanto o contratante obtém mão de obra especializada sem custos extras e sem nem mesmo ter a necessidade de motivar e reter o talento. As dores da contratação somem, assim como a obrigatoriedade de bater ponto.

 

 

Embora os profissionais tenham idades variadas, é nos millennials que a Gig Economy encontra sua tribo. Calcula-se que mais de 50% dessa geração já esteja trabalhando nesse estilo. “O jovem não gosta de ser empregado e não gosta de hierarquia. Nesse caso, essa nova configuração de trabalho é muito mais adequada para a nova geração que enxerga oportunidades da Gig Economy com mais afinidade”, explica Alessandra. Não por acaso, economistas relatam que todo o crescimento líquido de empregos entre 2005 e 2015 ocorreu nesse tipo de trabalho.

Embora os profissionais tenham idades variadas, é nos millennials que a Gig Economy encontra sua tribo. Calcula-se que mais de 50% dessa geração já esteja trabalhando nesse estilo

Dois fatores transformaram a Gig Economy em tendência: o fato de as empresas cortarem custos sempre que podem, já que é mais barato contratar mão de obra a funcionários em período integral, e a tecnologia que permite trabalhar de qualquer lugar a qualquer hora.

 

Excelência e eficiência

 

Em todo mundo, a Gig Economy é vista como uma geradora de renda que, de quebra, proporciona um equilíbrio saudável entre a vida pessoal e profissional, enquanto que, para os desempregados, pode ser uma oportunidade de trabalho a curto ou longo prazo. O uso de plataformas de compartilhamento de trabalho como principal fonte de renda ainda é relativamente modesto em mercados maduros. Nos Estados Unidos, Alemanha, Suécia, Reino Unido e Espanha, apenas de 1% a 4% dos trabalhadores citaram, em pesquisa, as plataformas de Gig Economy como principal fonte de renda.

 

No entanto, nos mercados em desenvolvimento ela cresce a passos largos. Na China, Índia, Indonésia e Bali, as plataformas de Gig Economy são a bola da vez. Na China, por exemplo, 12% dos trabalhadores afirmaram obter renda primária por meio dessas plataformas digitais. No Brasil, encontrar um motorista de Uber, Cabify, 99 ou entregador do Rappi, iFood e Uber Eats é mais fácil que achar um táxi ou carteiro.

 

A ascensão dos novos freelancers terá um impacto significativo na força de trabalho nos próximos anos. Em uma pesquisa de 2018 com 6,5 mil executivos de todo mundo, realizada pelo BCG Henderson Institute em parceria com a iniciativa Managing the Future of Work, da Harvard Business School, aproximadamente 40% dos entrevistados disseram que esperavam que os trabalhadores freelancers representassem uma parcela maior da força de trabalho de sua organização nos próximos cinco anos. E 50% concordaram que a adoção corporativa de plataformas de gig seria uma tendência significativa ou altamente significativa.

 

Esses resultados também foram ressaltados pela pesquisa publicada em maio de 2018 pela SAP Fieldglass, fornecedora de soluções externas de gerenciamento de força de trabalho baseadas em nuvem, conduzida em colaboração com a Oxford Economics. Dos 800 executivos seniores globais pesquisados, 38% estavam usando mercados on-line sob demanda para obter freelancers.

 

O estudo previu que a adoção dessas plataformas pelas empresas quase dobraria em três anos. Esse resultado não surpreende o mercado corporativo. “É fato que as empresas vão virar plataforma de negócios”, afirma César Gon, CEO da CI&T. Por questões de demanda e, claro, de oportunidade.

 

“Veja só o setor de turismo. Hoje, para viajar, você precisa comprar passagem aérea, hospedagem no hotel, passeios, reservas em restaurantes do Guia Michelin e muito mais. Mas hoje você encontra isso distribuído em várias empresas e geralmente precisa contratar alguém para encontrar passeios sob medida, de acordo com seu estilo e gosto”, observa o fundador que hoje é um grande especialista em transformação digital.

 

A tecnologia, explica ele, poderia resolver essa questão. Uma plataforma poderia agregar todos os serviços e oferecê-los em escala. O interesse da Gig Economy é de todos – das provedoras de ferramentas e serviços tecnológicos, das companhias que encontram novos modelos para ganhar dinheiro e também dos profissionais independentes.

 

Interesses e setores

 

O que há por trás do interesse das empresas nos talentos da Gig Economy? Excelência e eficiência. “Você não coloca mais uma pessoa para fazer tudo. O contrato por demanda vai trazer para dentro de casa um talento especializado que entende do assunto e executa com excelência, eficiência e alta produtividade”, diz Juliana. Dessa forma, o contratante sabe exatamente quem está contratando e pode, inclusive, pagar mais para ter acesso aquele nível de conhecimento.

 

Os novos freelancers vêm de todos os lados — vendas, educação, varejo — e não só das tradicionais áreas adeptas da contratação de freelancers como TI, programação, processamento de dados e mobilidade. Para mulheres, minorias e trabalhadores em mercados emergentes que tinham poucas ou nenhuma possibilidade de emprego, as plataformas criaram ou expandiram suas oportunidades, possibilitando o trabalho remoto.

 

Os talentos superespecializados também serão absorvidos pela Gig Economy, a exemplo de advogados, psicólogos, jornalistas e, acredite, até mesmo médicos. “É uma tendência de mercado. Cada vez surgirão mais e mais plataformas compartilhadas. As profissões não deixarão de existir, mas terão que evoluir, se aprimorar, mesclar conhecimentos. Um médico, por exemplo, também poderá ser especialista em robótica para poder operar por meio de um robô”, prevê Isabel Garcia, diretora-executiva de tecnologia em RH da EY.

“As profissões não deixarão de existir, mas terão que evoluir, se aprimorar, mesclar conhecimentos. Um médico, por exemplo, também poderá ser especialista em robótica para poder operar por meio de um robô”

Plataformas que conectam médicos a pacientes em consultas rápidas, sem a necessidade de passar pelo posto de saúde, podem ganhar força. No campo do Direito, advogados tenderão a usar uma plataforma para realizar reuniões virtuais com juízes. “A tendência é que as profissões adotem plataformas para facilitar seu dia a dia. O crescimento será exponencial. Daqui cinco ou seis anos vai ser assim”, diz Isabel.

 

Até cinco anos, mais ou menos 30% dos profissionais deverão usar ferramentas automatizadas, aponta pesquisa da EY. O intuito é desburocratizar tarefas e aumentar a produtividade.

 

A Gig Economy é um caminho sem volta. Quando solicitados a definir seu emprego futuro preferido, cerca de 45% escolheram, em resposta ao BCG, permanecer independentes e adicionar clientes conforme necessário para aumentar sua renda, em comparação com apenas 20% que preferiram encontrar uma posição remunerada em período integral.

 

Os profissionais já atingidos pela Gig Economy também responderam obter níveis mais altos de felicidade e satisfação com seu trabalho do que as pessoas empregadas em período integral, apesar de serem mais propensas a trabalhar mais de 45 ou até 60 horas por semana e a ganhar salários um pouco mais baixos.

 

A Gig Economy é frequentemente vista como uma ameaça à estabilidade do emprego e aos direitos trabalhistas. As críticas apontam o dedo para salários considerados mal remunerados e para a falta de dignidade – nesse caso, entregadores de encomendas de bicicleta que pedalam horas a fio e, muitas vezes, dormem na rua. Essa é uma questão em discussão em diferentes mercados que deve evoluir nos próximos meses.