Micronegócios: o poder transformador da tecnologia

É possível abraçar a transformação digital e transformar os negócios com pouco dinheiro
16/07/2019

Não é preciso ser uma startup disruptiva para investir em tecnologia. Tampouco é necessário aportar grandes quantidades de dinheiro para fazer com que ela trabalhe para o seu negócio. Mesmo no caso de microempreendedores puramente artesanais, a exemplo de um produtor de geleias caseiras, investir na transformação digital pode fazer toda diferença em termos de alcance e visibilidade de um micronegócio.

 

Hoje, a tecnologia é capaz de ajudar os microempreendedores a alavancar o capital limitado de forma inteligente. Site, e-commerce, chatbot, inteligência artificial, redes sociais, dentre tantos outros recursos, podem proporcionar maior eficiência e versatilidade aos processos de um negócio. Por meio de ferramentas tecnológicas, o microempreendedor pode impulsionar a produtividade, as finanças, o marketing, os trabalhos de aprendizado e colaboração, o serviço de atendimento ao consumidor e também facilitar as tarefas de gestão do dia a dia do negócio pela tela do celular.

 

Ainda não acredita e acha a tecnologia cara para o seu negócio? Então, é melhor você conhecer a Lei de Moore, que surgiu em 1965, que mostra que a relação entre preço e desempenho da computação dobra a cada 18 meses. Isso significa que as novas tecnologias, geralmente caríssimas, com o tempo tornam-se acessíveis aos pequenos empreendedores. Igual aos exames de DNA que, antes inacessíveis a maioria, hoje são oferecidos por US$ 100 por startups americanas. Escala, puxada pela multiplicação de fornecedores, joga o preço para baixo. Ou seja: a cada 18 meses, a tecnologia vem barateando.

Chatbot é um exemplo disso. “Especialmente no Brasil, onde o custo trabalhista é altíssimo”, explica Alessandra Andrade, coordenadora de empreendedorismo da FAAP. A eficiência do chatbot deve ser acompanhada de uma linguagem que acompanhe o negócio. Se for um e-commerce de roupas e acessórios para surfistas, a linguagem do chatbot não pode ser extremamente formal. “O que não pode acontecer é cativar o cliente na loja física e proporcionar uma experiência horrível no online”, conta Alessandra. Inteligência artificial também barateou. O que custa caro, na verdade, é a programação, uma vez que precisa ser parametrizada.

 

Desafios viram oportunidades

 

Micronegócios que desejam investir em tecnologia enfrentam, de cara, a barreira da geração. Os mais velhos têm, naturalmente, dificuldade de lidar com as novas tecnologias. Já os mais jovens encaram recursos e ferramentas da atualidade com naturalidade.

 

Nesse caso, o melhor caminho para derrubar a barreira geracional é buscar ajuda de pessoas próximas que pertençam à nova geração. Seja um filho, sobrinho, vizinho, parente de um amigo, segundo Diego Smorigo, consultor de negócios do Sebrae SP. Outro caminho mais acessível é buscar as microagências digitais.

 

O conselho de Alessandra é não tentar fazer dez coisas ao mesmo tempo. Um exemplo seria ter dez canais para divulgar seu negócio e se comunicar com os clientes. “Se não fizer tudo com consistência, não adianta ter volume. É preciso ter qualidade.”

 

Também é bom lembrar que a palavra-chave para um micronegócio de sucesso é relevância. Do produto ou do serviço em si, conforme define Daniel Domeneghetti, sócio-fundador da e-consulting. “Você tem que oferecer o que ninguém oferece ou oferecer algo melhor que os outros. A partir daí, deve-se trabalhar a relevância da sua marca, produto ou serviço no mundo digital, seja por anúncio, seja por outros meios de divulgação”, acredita.

 

Os três conselhos de Domeneghetti para os microempreendedores na era digital são: entregar produtos ou serviços demandados na velocidade ditada pelo mercado, trabalhar com uma plataforma que permita operar com o mínimo de suporte tecnológico; e fazer barulho nas redes sociais mirando os clientes em potencial.

 

Ter ou não um e-commerce, eis a questão. Hoje, há provedores de internet que permitem criar uma loja virtual de forma rápida, em cima de padrões pré-estabelecidos. Para receber, ele indica um dos muitos apps de meios de pagamento hoje disponíveis como PagSeguro ou Mercado Pago. Caso não queira criar um e-commerce, Domeneghetti sugere que se venda por e-mail ou nas redes sociais. Twitter, YouTube e Instagram, sugere, também podem ser usados para captar e divulgar o testemunho de clientes.

 

Quando a tecnologia transforma o negócio

 

Em sua carreira como consultor de negócios do Sebrae São Paulo, Smorigo tem se deparado, nos últimos tempos, com casos de microempreendedores que têm conseguido transformar seus negócios por meio da tecnologia. Esse foi o caso de uma pequena loja de roupas de Osasco (SP) que, após sete meses operando em um box de uma galeria, decidiu criar um e-commerce. O negócio cresceu de tal forma que o espaço físico foi desativado e virou depósito e espaço para preparo das embalagens e separação. Hoje, ao invés de funcionar em horário comercial, a loja virtual opera em esquema 24×7.

 

Outro exemplo citado pelo consultor do Sebrae é o de um cabeleireiro como microempreendedor individual que, a cada dia de semana, atende em um salão diferente por meio do programa Salão Parceiro-Profissional. Nesse caso, por meio de uma conta no Whatsapp ou no Facebook, que tem chatbot, o profissional consegue usar a tecnologia a seu favor para agendamento de serviços em diferentes bairros e horários.

 

Outro caso é o de uma casa de bolos do interior de São Paulo que anuncia na internet os sabores e horários das fornadas antes do quitute artesanal ficar pronto. E, nesse caso, com boa parte das vendas asseguradas antes de ir para o balcão.

 

A história da Mermeleia, marca de geleias caseiras criada em 2014 pelo chileno Mauro Concha e o brasileiro Thiago Carmo pode ser dividida entre antes e depois da tecnologia. A venda inicial para amigos e em feirinhas gastronômicas se transformou quando eles decidiram apostar em um e-commerce e também em redes sociais como o Instagram. Sabores como o de cebola roxa e Cabernet Sauvignon fizeram barulho entre os consumidores e o negócio, pós-tecnologia, cresceu 80%.

 

“O nosso maior crescimento veio através dessas duas plataformas. O e-commerce é a nossa grande vitrine e o Instagram um importante meio de comunicação direta, em que recebemos feedback imediato dos clientes”, conta Carmo.

 

O virtual fortaleceu a marca e a aproximou com o público consumidor. “Ele nos permite alcançar quem está em Manaus, por exemplo.” Há um ano, os sócios abriram uma loja física da Mermeleia em São Paulo, que oferece degustações de todos os sabores à venda como manga e maracujá e cambuci, premiada no exterior.

 

Como recomendado pelos especialistas, ao invés de contratar um webmaster e criar um site do zero, a Mermeleia recorreu a um amigo que já trabalhava com comércio eletrônico e indicou a plataforma Iluria, que já vem pronta e é personalizável. “A mensalidade do e-commerce é bem barata permite que o cliente calcule o frete e tem um vínculo direto com o PagSeguro, cujo pagamento sai direto na minha conta.”

 

Hoje, a loja física e virtual da Mermeleia respondem por 30% do faturamento da microempresa. Os 70% restantes vêm dos 30 empórios e lojas que revendem a marca no país.

 

Ieda Doria também viu sua vida mudar – para melhor – depois que ela perdeu o emprego em um restaurante de São Paulo. No início, a faxineira entregava cartões de visita no prédio onde morava. Posteriormente, com a ajuda dos filhos gêmeos Flavio e Silvio, nasceu o site Sua Casa Limpa, que visa simplificar a contratação de profissionais de limpeza.

 

O conhecimento em design e administração foi fundamental na criação do produto. O site foi criado “na raça” pelos gêmeos. “A internet nos trouxe um alcance enorme. Sem ela, ficaríamos restritos ao nosso prédio ou, no máximo, nossa rua”, conta Flavio Doria.

 

A MEI oferece, na capital paulista, serviços como faxina em apartamentos por quatro horas, a R$ 99, mais o transporte do prestador de serviço. Todo serviço pode ser contratado pelo site, que também foi divulgado por influenciadores digitais em sua fase inicial.

 

Hoje, Ieda tem uma renda de R$ 3.000 em média ante o salário mínimo ganho antes da Sua Casa Limpa. “No começo, ganhamos, em média, R$ 6 mil brutos. Hoje, nós repassamos boa parte dos trabalhos aos colaboradores, que são, em totalidade donas de casa desempregadas”, conta Doria.

 

O site, construído na raça pelos gêmeos, tem quase 2.000 clientes cadastrados no banco de dados e 800 visitas por mês. “Passamos a cadastrar em uma planilha depois de dois meses.” Agora, os gêmeos planejam entrar em alguma aceleradora para escalar o negócio e captar recursos.

 

Veja 10 dicas para impulsionar seu negócio com a ajuda da tecnologia:

 

  • adote um software para gerenciamento de tarefas diárias, com o intuito de ganhar tempo
  • use as redes sociais como Facebook, Twitter, Pinterest, Instagram e YouTube para promover seu negócio, produtos e serviços
  • permita que os clientes agendem, online, seus serviços. Uma conveniência que agrada a maioria e é crescente
  • substitua viagens por conferências pela internet, para reduzir custos
  • compartilhe e armazene de documentos na nuvem, o que evita investimentos em hardware e facilita o acesso de dados, projetos e imagens de qualquer computador ou celular em qualquer lugar do mundo
  • invista em um chatbot (programa de computador que simula um ser humano em uma conversa por whatsapp ou facebook) para acelerar e baratear contato com o consumidor
  • faça uso de pesquisas e questionários online para obter feedback dos clientes
  • aposte em videomarketing, como fazem hoje as corretoras de investimento, como a XP, por exemplo. Você mesmo pode fazer um vídeo.
  • promova seu negócio por meio de um site, que pode ser um e-commerce, e também por meio de anúncios online
  • invista em SEO (Search Engine Optimization) e no SMO (Social Media Optimization), para fazer com que o seu site e os links postados em redes sociais sejam mais facilmente encontrados pelos robôs do Google durante uma pesquisa