Mulheres e futuro do trabalho: a desigualdade de gênero será ainda pior?

Estudo aponta que entre 40 milhões e 160 milhões de mulheres podem ter de buscar novas ocupações nos próximos dez anos

Sergio Teixeira Jr., de Nova York

02/12/2019

O desafio da automatização e as possíveis rupturas no que se entende por trabalho são temas cada vez mais importantes no mundo todo – e que merecem atenção especialmente por parte das mulheres. Um novo estudo divulgado pelo McKinsey Global Institute aponta que entre 40 milhões e 160 milhões de mulheres podem ter de buscar novas ocupações nos próximos dez anos, muitas vezes empregos que exigem mais qualificação. Aquelas que forem capazes de navegar essa transição podem ter trabalhos mais produtivos e mais bem remunerados. As que não conseguirem podem enfrentar disparidade salarial e desigualdade de gênero ainda mais agudas que as existentes hoje.

 

 

O estudo analisou seis países desenvolvidos (Canadá, França, Alemanha, Japão, Reino Unido e Estados Unidos) e quatro economias emergentes (China, Índia, México e África do Sul), um universo que compõe cerca de metade da população mundial e aproximadamente de 60% do PIB global. De acordo com a McKinsey, aproximadamente 20% das mulheres correm o risco de perder seus empregos por causa da automação, um percentual muito parecido com o dos homens.

 

 

Embora a consultoria estime que os países emergentes estejam menos sujeitos à ruptura representada pela automatização, é importante lembrar que ocupações puramente administrativas são as mais vulneráveis a despeito do grau de desenvolvimento da economia como um todo – e geralmente exercidas por mulheres. Nos Estados Unidos, por exemplo, 94% das secretárias e assistentes administrativas são mulheres, dois tipos de emprego que devem sofrer enorme impacto com a adoção da inteligência artificial.

 

 

Como lidar com essa profunda transformação no mundo do trabalho? A primeira recomendação é abraçar o “aprendizado durante toda a vida”, da escola à vida profissional. “Nas economias emergentes, a educação de meninas e mulheres vem melhorando de forma notável nos últimos anos, sugerindo que as mulheres estejam mais bem posicionadas do que no passado para tirar proveito das mudanças. Mas ainda há disparidades de gênero importantes, especialmente no tipo de habilidades que serão requisitadas das mulheres”, diz o estudo.

 

 

O próprio desenvolvimento das tecnologias de inteligência artificial é um indicador dessa disparidade de gênero. Segundo dados do ano passado compilados pelo Fórum Econômico Mundial e pelo LinkedIn, apenas 22% das vagas no setor de IA são ocupadas por mulheres. Isso significa um risco implícito da perpetuação de preconceitos e discriminação em algoritmos que terão influência decisiva na vida das mulheres – como mostram os casos das ferramentas de RH que demonstram dar mais valor aos candidatos homens, por exemplo.

Segundo dados do ano passado compilados pelo Fórum Econômico Mundial e pelo LinkedIn, apenas 22% das vagas no setor de IA são ocupadas por mulheres

Se estão subrepresentadas nos setores técnicos, as mulheres que exercem funções que exigem inteligência emocional e comunicação interpessoal contam com uma segurança relativa, já essas duas características humanas ainda não podem ser replicadas por computadores. Professoras, terapeutas ocupacionais, enfermeiras, cuidadoras são algumas das ocupações menos propensas a ser substituídas por sistemas de IA. O envelhecimento da população global significa uma necessidade cada vez maior de pessoas encarregadas de cuidar de idosos, e esta é uma das ocupações que mais crescem nos Estados Unidos. O problema é que esse tipo de serviço paga mal.

Para muitas mulheres, a solução para obter equidade salarial é entrar para a “economia dos frilas”. Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, 86% das mulheres que fazem bicos como dirigir um carro do Uber querem mais que sobreviver – elas querem equiparar seus ganhos com os homens. O setor dos “frilas” movimenta globalmente mais de 200 bilhões de dólares, e as estimativas são de que esse total dobre até o meio da próxima década.

 

 

Hoje, esse tipo de ocupação corresponde a apenas 1% da força de trabalho americana. Mas, segundo a previsão de Siddharth Suri e Mary Gray, dois pesquisadores sêniores da Microsoft, em 2055 esse “trabalho sob demanda” pode representar 60% da força de trabalho mundial. E, novamente, estamos falando de empregos que não oferecem estabilidade e muitas vezes driblam as leis trabalhistas.

 

 

Suri e Gray lançaram este ano “Ghost Work – How to Stop Silicon Valley from Building a New Global Underclass” (trabalho fantasma: como impedir que o Vale do Silício crie uma nova subclasse global, em tradução livre). No livro, eles argumenta que as grandes empresas de tecnologia dependem de uma espécie de uma versão digital do “trabalho manual” –  moderar comentários, fazer transcrições, legendar fotos ou limpar bases de dados que serão usados para treinar sistemas de IA.

 

 

Esse tipo de ocupação, de que exige pouca qualificação e paga pouco, pode ser o que resta para muita gente que ficou para trás num futuro automatizado. “O grande paradoxo da IA é que o desejo de eliminar trabalhos humanos gera novas tarefas para os humanos”, escrevem Suri e Gray. O que ainda não se sabe é se essas tarefas são recompensadoras, bem pagas e igualitárias.