Para Nobel de Economia, trabalho é o principal local de aprendizagem

Paul Romer acredita que, para sobreviverem ao futuro do trabalho, profissionais devem optar por empresas e funções nas quais possam aprender algo novo

Carolina Pereira

21/11/2019

Para o economista americano Paul Romer, o avanço da tecnologia está no coração do crescimento econômico das nações. O vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2018 é conhecido por integrar as inovações tecnológicas nas análises macroeconômicas de longo prazo e relacioná-las diretamente com o desenvolvimento. E, em um cenário no qual a tecnologia vem avançando e ganhando cada vez mais espaço, Romer não costuma temer o futuro do trabalho: “Precisamos resolver o problema de hoje. No Brasil, eu acho que o principal problema hoje é que há pessoas que não têm um trabalho. E essa deveria ser uma prioridade muito alta”, avalia.

 

O economista participou, na última quinta-feira (21/11) do Forum Brasil Digital, em São Paulo, e falou com a IT Trends sobre como governo, empresas e os profissionais podem se preparar para o impacto da tecnologia e transformação digital nas carreiras. Para ele, o trabalho é o principal local de aprendizagem, e o governo deveria assegurar que houvesse cada vez mais trabalhos disponíveis que dão a oportunidade de aprender coisas novas.

 

“As empresas com sistemas modernos geram lugares melhores para aprender. E não necessariamente essas companhias são digitais”, avisa o ganhador do Nobel. Dentro do conceito de Romer, empresas que possuem formas de monitorar e assegurar entregas de alta qualidade ou prover feedbacks nessa direção estão dentro do grupo que ele considera ideal para os profissionais atuarem hoje.

 

No campo da educação, para reforçar a empregabilidade dos futuros profissionais, Romer acredita no poder das avaliações para melhorar o ensino, especialmente a avaliação dos próprios professores. Para ele, fornecer feedback de que o que eles estão fazendo está funcionando ou não é essencial. “Essa é uma das coisas que o governo deveria prover”, diz.

 

Um teste já existente e que pode ajudar neste sentido, segundo Romer, é o chamado Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), que é aplicado de forma amostral a estudantes matriculados a partir do 7º ano do ensino fundamental na faixa etária dos 15 anos, idade em que se pressupõe o término da escolaridade básica obrigatória na maioria dos países.

O objetivo do PISA é produzir indicadores que contribuam para a discussão da qualidade da educação nos países participantes, de modo a subsidiar políticas de melhoria do ensino básico. Os dados de 2016 mostram o Brasil na 63ª posição em ciências, na 59ª em leitura e na 66ª colocação em matemática, de um total de 70 países avaliados. Os resultados do último exame devem sair ainda neste ano.

 

 

Fake news e competitividade digital

 

Ainda em sua visita ao Brasil, Paul Romer também disse acreditar que as fake news têm impacto na economia e sugere, para combatê-las, a criação de uma identidade digital capaz de assegurar quem cada pessoa é na internet. Ele defende uma solução tecnológica que ajuda a restabelecer o valor da reputação das pessoas na era digital.

 

“Eu não olho para nenhuma notícia sem que eu saiba quem escreveu o artigo e onde o autor trabalha. Agora, pessoas podem escrever um artigo e dizer que foi Paul Romer quem escreveu. Precisamos de um mecanismo para saber quem escreve uma notícia e checar a reputação”, analisa.

 

Receba somente o que importa sobre transformações digitais

O ganhador do Nobel afirma que as fake news podem ser consideradas um problema com impacto econômico, e afirma que tem estudado o tema. Para a solução tecnológica proposta, ele não acredita que Blockchain, apenas, resolveria o problema.

 

No âmbito digital, Romer também é defensor da criação de um imposto progressivo para a venda de publicidade pelas gigantes da internet como Google e Facebook. Quanto maior a receita adquirida por essa prática, maior a taxação. Este tipo de tributação, segundo ele, aumentaria a competitividade com empresas menores.

 

 

“Prefiro viver em uma sociedade em que empresas inovadoras obtêm um benefício tributário quando criam novas divisões lucrativas como empresas independentes; e onde os novos participantes podem sobreviver e prosperar. Não quero viver em uma sociedade em que o modelo de negócios para cada novo participante dependa de ser absorvido por algum monopólio dominante”, explica ele em seu site.

 

Crédito da Imagem: Alexander Mahmoud/Nobel Media