O que esperar dos escritórios do futuro

Estudo mostra que quem trabalhadores passam mais tempo sentados que o aposentado médio. Algumas empresas já apostam em novos modelos para melhorar qualidade de vida e colaboração

Sergio Teixeira Jr., de Nova York

01/01/2020

Em outubro passado, a empresa britânica Fellowes publicou um vídeo que deu o que falar nas redes sociais. Com a ajuda de um futurólogo, a companhia apresentou ao mundo Emma, uma boneca que representa “nossa colega de trabalho do futuro”. Emma seria a representação da típica funcionária de escritório daqui 20 anos, e sua aparência é assustadora. Ela é corcunda. Os músculos de suas pernas estão enfraquecidos porque ela passa tempo demais sentada, e ela tem varizes. Sua barriga é saliente e seus olhos estão sempre secos e avermelhados – tudo isso causado pelas longas horas diante do computador.

 

Antes de mais nada, é preciso esclarecer que essa imagem perturbadora foi criada por uma empresa de mobiliário de escritório – ou seja, a Fellowes estava usando o medo para fazer marketing. Mas a imagem de Emma foi baseada em estudos científicos que demonstram que o que se entende por um trabalho de escritório hoje em dia é de fato muito pouco saudável. Ninguém duvida que o futuro do trabalho vai envolver cada vez mais o uso da tecnologia digital, e a campanha da empresa serviu de alerta.

 

Um estudo realizado pela Universidade de Edimburgo indicou que quem trabalha em um escritório típico passa mais tempo sentado que o aposentado médio. Isso se traduz em maiores riscos de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e até mesmo alguns tipos de câncer, mesmo que as pessoas pratiquem atividades físicas regularmente.

Um estudo realizado pela Universidade de Edimburgo indicou que quem trabalha em um escritório típico passa mais tempo sentado que o aposentado médio. Isso se traduz em maiores riscos de doenças

Considere a nova sede da American Airlines, na cidade de Fort Worth, Texas. Inaugurado há pouco menos de dois meses, o edifício tem uma série de inovações que levam em conta os desejos dos funcionários. (Um deles é irônico, em se tratando de uma companhia aérea: eles pediram mais espaço para esticar as pernas.)

 

A nova sede da American tem mais de 1 000 espaços para reuniões (salas e “cantos” especialmente projetados para isso, incluindo em áreas externas), e um sistema de som emite ruído branco para mascarar o barulho dos espaços abertos.

 

A empresa online de viagens Expedia começou a ocupar seu novo campus em Seattle. Os edifícios foram desenhados seguindo a tendência conhecida como “biofilia”, ou a integração de áreas internas e externas. Quando o tempo está bom, enormes portas de vidro podem ser abertas, deixando entrar a brisa e ar fresco de fora.

Mas não é só a questão da saúde que preocupa os estudiosos. No campo da administração, acadêmicos estão dedicando cada vez mais atenção a uma palavra muito usada, mas pouco compreendida, no ambiente profissional: colaboração.

 

Escritórios abertos, sem salas ou divisórias, são cada vez mais comuns, pois promovem trocas espontâneas e supostamente produtivas. E, nos casos em que os espaços significam uma limitação, as ferramentas tecnológicas servem para derrubar barreiras físicas. Graças a softwares de colaboração como Slack e Microsoft Teams (além do eterno e-mail) e aplicativos de videoconferência como Skype e Zoom, nunca foi tão fácil trabalhar em equipe – não importa se seus colegas estão no andar de baixo ou do outro lado do mundo.

 

Ou pelo menos é isso o que diz a teoria. Um estudo recém-publicado por Ethan Bernstein e Ben Waber na revista Harvard Business Review acompanhou a rotina dos funcionários de duas grandes empresas americanas na transição de um escritório tradicional, com baias e cubículos, para espaços abertos. Com a ajuda de sensores, câmeras e medições das interações digitais, os pesquisadores tentaram determinar se a ausência de separações físicas aumentaria as interações cara-a-cara – e, por consequência a colaboração.

 

A conclusão de Bernstein e Waber foi surpreendente. As interações pessoais caíram 70% depois da mudança de escritórios – e o uso de ferramentas digitais de comunicação aumentou. Os autores do estudo sugerem que, com a ausência das barreiras físicas, os colegas são mais ciosos do espaço pessoal dos colegas. Se alguém parece estar concentrado em alguma tarefa, provavelmente não será interrompido. “Se uma pessoa tenta começar uma conversa e o colega olha com cara irritada, isso não vai se repetir no futuro”, escrevem os autores.

Estudo mostrou que as interações pessoais caíram 70% depois da mudança de escritórios tradicionais para espaços abertos

Uma outra realidade cada vez mais comum é a agilidade. Como prova o sucesso dos espaços de co-working, a ideia de ter uma mesa fixa, com um telefone e um PC, vem cada vez mais sendo substituída pelo trabalho nômade. Com um celular no bolso e um laptop na mochila, qualquer literalmente qualquer lugar do mundo pode servir de escritório (desde que tenha conexão com a internet, é claro).

 

Uma das tendências das grandes empresas é ter áreas cada vez maiores de “hot desks”, onde funcionários de outras unidades – ou parceiros de negócios – possam plugar seus computadores e trabalhar imediatamente.

 

O apelo desse sistema é claro para as empresas, já que em cidades em que o custo imobiliário é alto, o “hot desk” pode significar enorme economia – estima-se que em cidades como Londres e Hong Kong, por exemplo, uma única estação de trabalho fixa custe até 20 000 dólares por ano.

 

Mas muitos dos que se veem forçados a encontrar uma nova mesa para trabalhar todos os dias não é tão fã da ideia. Em algumas empresas, tentativas de ocupar permanentemente esses espaços (colocando um porta retratos ou deixando o casaco pendurado na cadeira) são proibidas; em outras, funcionários circulam pelo ambiente lembrando os funcionários de que as mesas são compartilhadas — se ficarem desocupadas por mais de duas horas, devem ser liberadas.

 

Se existe algum consolo, essa busca incessante por um espacinho para colocar o computador pode ser a atividade física que vai evitar que nos transformemos na temida Emma.