Óleo e gás: o que acontece com a TI dessas empresas na pandemia

Necessidade de isolamento social tem feito cair a demanda por combustível no mundo todo, mas projetos de transformação digital continuam em ritmo acelerado

Carolina Pereira

22/05/2020

No mês de março deste ano, Roberto Castello Branco, presidente da Petrobras, chegou a afirmar que estamos vivendo a “pior crise da indústria do petróleo nos últimos 100 anos”, em referência aos efeitos que o setor tem sofrido por conta da pandemia do novo coronavírus. Para enfrentar este cenário, a petroleira acabou anunciando uma redução dos investimentos programados para 2020. Diante deste cenário, a viabilidade de novos projetos pode ficar comprometida.

 

Pegando o exemplo da Petrobrás, que é a maior companhia de óleo e gás do país, é possível observar que o as perspectivas desse setor são, agora, bem diferentes de quando foi aplicada a pesquisa anual da IT Mídia Antes da TI, a Estratégia, entre o final do ano passado e início desse ano – portanto, antes da pandemia. Na época, o otimismo dominava este segmento e a maioria dos CIOs do setor de indústria química, petróleo, óleo e gás, sem nem imaginar o que estava por vir neste mercado, previam um aumento de entre 26% e 50% no orçamento de TI de 2020 em comparação com 2019, sendo que a maioria planejava concentrar os investimentos no terceiro trimestre do ano (52,9%).

 

Na época, aumento da inteligência do negócio era visto como principal desafio do ano por mais da metade dos CIOs (55,6%), o que significa a implementação/upgrade de BI, integração de bases de dados KPIs, analytics, big data. “O otimismo, antes coronavírus, se deve aos números projetados para economia brasileira, pois o Brasil esperava um PIB próximo a 2,80% de crescimento e uma retomada significativa de postos de trabalho, reduzindo o desemprego”, observa o professor de Cenários Econômicos do Centro Universitário Internacional Uninter, Cleverson Luiz Pereira.

 

Mas, e agora, como ficam as prioridades desse setor? Para se ter uma ideia do impactos da crise neste segmento, a Cobli, startup de rastreamento e monitoramento de frotas, analisou a circulação dos times de campo de pequenas e médias empresas de todo o Brasil. A análise leva em consideração o total de quilômetros rodados pelas frotas entre os dias 23 de março – quando as medidas de restrição comercial começaram a entrar em vigor – e 19 de abril. O total de quilômetros rodados chegou a cair 25%, quando comparado com o mesmo período da semana anterior.

 

“A queda da quilometragem rodada já está impactando o consumo de combustível e a manutenção, por exemplo. Isso, por sua vez, vai impactar setores como petróleo e autopeças, e assim o efeito se estende” afirma Rodrigo Mourad, da Cobli, no comunicado da startup sobre o estudo. De fato, a pandemia do novo coronavírus e as necessidades de isolamento social têm ocasionado uma queda na demanda mundial pelo combustível.

 

 

Em momentos como este, segundo Pereira, a ordem agora em qualquer setor é se manter em atividade e esperar a retomada para pensar em novos projetos. Mas isso não significa que os projetos de tecnologia ficarão em segundo plano. “Já nos departamentos de TI das empresas, visualizo uma perspectiva otimista, pois a tecnologia da informação sempre foi e será, ainda mais pós covid-19, um agente de mudança no mundo”, avalia.

 

De fato, na Raízen, por exemplo, muitos projetos foram até intensificados após a pandemia, como é o caso da plataforma de relacionamento com clientes Shell Box. Segundo o gerente executivo de TI, Daniel Dosualdo, gerente executivo de TI da empresa, o uso do app que permite fazer o pagamento sem sair do carro deve ser ampliado e já vem ganhando novos parceiros.

 

Na pesquisa Antes da TI, a Estratégia, metade dos CIOs apontavam a mobilidade/aplicativos móveis como um tema de grande impacto nos negócios nos próximos 12 meses, mesmo antes da pandemia, em linha com a estratégia priorizada pela Raízen. Além disso, metade dos respondentes também acreditava que um dos maiores desafios da TI para 2020 seria desenvolver com sucesso projetos complexos com impacto no negócio.

 

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Dosualdo explica que, no final das contas, o grande driver da área de TI acaba sendo o retorno financeiro de cada iniciativa. “Há projetos que acabamos adiantando e outros que talvez sejam postergados, como projetos de migração de plataforma e modernização de aplicações, por exemplo, que são projetos com retorno mais do ponto de vista de tecnologia do que financeiro”, conta.

 

E é claro acelerar os projetos de trabalho remoto e as iniciativas de segurança da informação – por conta de um recente aumento de ataques cibernéticos – também são ações que não podem ficar fora da agenda. “Falando do mundo TI, estamos tendo até mais trabalho. É um momento mais desafiador ainda em termos de projetos”, resume Dosualdo.

 

Na Chevron, o momento também pede intensificação da transformação digital focada em resultados, segundo Marcelo Ferraz, Gerente de TI. “Com o atual cenário econômico de redução da demanda por petróleo e queda nos preços do barril, estamos sendo desafiados a aumentar a nossa eficiência, buscando iniciativas que acelerem a transformação digital dentro da empresa e, assim, entregar resultados em qualquer cenário de negócios”, diz.

 

O executivo conta que, com a adoção total do home office, aliado à necessidade de aumentar a eficiência do negócio, muitas iniciativas na área digital têm surgido internamente de forma exponencial. “Entre os exemplos, estão aplicações que permitem a construção de novos dashboards, a automação para melhorar o fluxo interno de trabalho e a utilização de mecanismos digitais para capturar informação e eliminar atividades repetitivas utilizando RPA (Robotic Process Automation)”, enumera Ferraz.

 

Além da transformação digital acelerada, em termos de aprendizado, não só para a área de TI, ele garante que os ganhos foram equivalentes a um período de tempo muito mais longo. “A necessidade de os usuários trabalharem remotamente e com produtividade exigiu que eles se familiarizassem rapidamente com as ferramentas digitais, quebrando paradigmas e eliminando a resistêncial natural do ser humano pela novidade, proporcionando um aprendizado significativo nestes últimos 60 dias, que somente seria adquirido em um período de um ano ou mais”, analisa.

 

Com tantas mudanças, ele acredita no fortalecimento da área de TI que, no contexto da pós-pandemia, deve sair muito prestigiada e com a sua importância ainda mais reconhecida pela liderança da companhia. “Estamos tendo a oportunidade de consolidar uma performance operacional de excelência e também de mostrar que a área de TI é estratégica para a empresa ao propor e suportar soluções e inovações, contribuindo, assim, como um parceiro chave para ajudar a companhia a atravessar períodos favoráveis ou superar momentos de adversidade, como o que estamos vivendo atualmente”.

 

Daqui para a frente, não só para o segmento de óleo e gás, as perspectivas para a área de TI são ainda mais positivas. “Quando as pessoas saírem do isolamento por completo e, com base nas ações que os governos tomarem em prol da recuperação econômica de seu país, conseguiremos avaliar com eficácia a retomada dos investimentos em todas as áreas e principalmente no setor de tecnologia da informação”, finaliza Cleverson Luiz Pereira.