É preciso pensar em um futuro automatizado desde já

Enquanto as soluções não estão à vista, a responsabilidade é de cada profissional

Sergio Teixeira Jr., de Nova York

15/11/2019

“Sim, os robôs estão roubando seu emprego.” Este era o título de um artigo publicado no The New York Times por Andrew Yang, um empreendedor que fez fortuna na área de tecnologia e é um dos pré-candidatos do Partido Democrata para a eleição presidencial do ano que vem nos Estados Unidos. Um dos pontos em que Yang vem insistindo em sua campanha é a ameaça que a automação representa para os empregos de milhões de americanos.

 

Um dos exemplos prediletos do candidato é o dos 3 milhões de motoristas de caminhão que circulam pelas estradas do país. Segundo Yang, a tecnologia dos caminhões autônomos está se desenvolvendo rápido o bastante para essencialmente dar credibilidade à ideia de que a profissão vai desaparecer. A imensa maioria dos motoristas são homens, têm idade média de 49 anos e completaram o ensino médio – em outras palavras, é difícil imaginar que eles consigam empregos de salários comparáveis caso sejam vítimas de uma revolução tecnológica. “Contadores, jornalistas, trabalhadores do varejo e do setor de restaurantes, assistentes administrativos, operadores de call center e até mesmo professores correm o risco de ser substituídos por máquinas”, escreve Yang.

 

Não é difícil compreender o apelo dessa visão de um futuro sombrio, que mistura a distopia da ficção científica com os alertas do luditas do século 19. Depois de décadas emperrada, as tecnologias de inteligência artificial deram saltos importantes nos últimos anos, graças a enormes data centers, inovações em software e ao acúmulo jamais visto de informações por empresas como Google e Facebook (essa montanha de dados é essencial para que os computadores possam “aprender”). Os avanços técnicos e o barateamento de sensores e câmeras é a outra parte do quebra-cabeça; sem eles, não seria possível construir os robôs de última geração, cujo exemplo definitivo são os veículos autônomos.

 

Mas, embora o risco do desaparecimento de empregos seja real, alguns especialistas recomendam cuidado com as previsões mais catastróficas. Entre eles está Paul Krugman, premiado com o Nobel de Economia em 2008. Krugman afirma que a transformação tecnológica não é um fenômeno novo, mas sim uma realidade que sempre desafiou os trabalhadores – basta lembrar que há um século a maior parte da população trabalhava na agricultura.

Outra ideia rebatida por Krugman é a da suposta velocidade da transformação, que agora seria muito mais rápida e potencialmente devastadora. Ele aponta para os dados da produtividade na economia, um bom indicador da vantagem de trocar trabalhadores por máquinas. Entre 2007 e 2018, a produtividade cresceu num ritmo 50% inferior na comparação com os 11 anos anteriores. Outro economista americano, Robert Solow, não foi capaz de estabelecer em seus estudos uma relação direta entre maiores investimentos em tecnologia da informação e aumento de produtividade. Ele resumiu suas conclusões numa frase que ficou célebre: “Você vê a era dos computadores em todos os lugares, menos nas estatísticas de produtividade”.

 

Ainda é cedo para dizer se os caminhoneiros terão o mesmo destino dos acendedores de lampião, uma profissão que existiu por centenas de anos e desapareceu rapidamente depois da invenção da luz elétrica. Ninguém tem dúvidas de que o mundo ficou melhor graças à eletricidade, mas, cem anos atrás, houve protestos violentos em algumas cidades europeias contra a adoção da grande inovação da época. À luz dessa experiência passada (e com o perdão do trocadilho), é importante entender o impacto das transformações trazidas pela tecnologia – e elas passam necessariamente pela política.

“A ansiedade causada pela automação é inteiramente justificada. A era dos robôs avançados representou uma redução das oportunidades para a classe média”

“A ansiedade causada pela automação é inteiramente justificada. A era dos robôs avançados representou uma redução das oportunidades para a classe média. Até os anos 1980, empregos na manufatura permitiam que trabalhadores levassem uma vida de classe média sem a necessidade de formação superior”, escreve Carl Benedikt Frey, professor de economia da Universidade de Oxford e co-autor de um estudo que previu que até 47% dos empregos dos Estados Unidos podem vir a ser realizados por máquinas.

 

Frey, que lançou este ano “The Technology Trap” (a armadilha da tecnologia, em tradução livre), argumenta que o futuro próximo terá sobressaltos inevitáveis. A Revolução Industrial levou várias décadas para se traduzir em aumentos de salários para os trabalhadores britânicos, a um custo do aumento da desigualdade econômica. O mesmo fenômeno pode se repetir agora, pois os empregos disponíveis exigirão menos qualificações e, portanto, pagarão menos.

 

Para o autor, a solução passa por políticas públicas, como uma espécie de “seguro-desemprego” para quem for obrigado a aceitar empregos de salários mais baixos, um sistema educacional que contemple a educação durante toda a vida e incentivos fiscais para a geração de empregos. Enquanto essas soluções não estão à vista, a responsabilidade será individual. Ainda faltam muitos e muitos anos para que os veículos autônomos ganhem as ruas e estradas do mundo. Mas os caminhoneiros e motoristas – como os acendedores de lampião e os trabalhadores das tecelagens inglesas do passado – precisam começar a pensar num futuro automatizado desde já.