Você está preparado para ser um profissional ágil?

Novos modelos exigem habilidades como trabalho em equipe, colaboração, escuta ativa e flexibilidade

Danylo Martins

29/11/2019

A pergunta do título da matéria levou você a pensar que estamos falando de velocidade, rapidez ou fazer as atividades com pressa? Nada disso. Ser um profissional ágil tem a ver com autonomia, flexibilidade e colaboração. É isso que as empresas têm procurado mais. Basta notar a adoção crescente das chamadas metodologias ágeis, como Scrum e Kanban, ou ainda o conceito “lean startup” (startup enxuta, em tradução livre). Engana-se quem pensa que os novos modelos de trabalho se restringem aos negócios de base tecnológica – grandes empresas abrem a mente cada vez mais para a cultura da agilidade.

 

Com ciclos curtos de entrega e feedbacks durante o processo, os times multidisciplinares se unem para desenvolver produtos e serviços. Esqueça as paredes engessadas ou áreas bem delimitadas, como RH, finanças, marketing e jurídico. Profissionais de diversos setores formam uma equipe cujo objetivo é comum e bem claro: melhorar o fluxo de entrega de projetos.

 

Essa mentalidade ágil é benéfica para as companhias. Ajuda a minimizar o tempo que o profissional gasta com atividades que geram desperdício, por exemplo, reuniões improdutivas, retrabalhos, “passagens de bastão” desnecessárias, explica Vitor Massari, professor de metodologia ágil na pós-graduação de gestão de negócios e projetos da Fundação Instituto de Administração (FIA). “Consequentemente, isso aumenta a produtividade, engajamento e motivação do profissional.”

 

Adaptação e aprendizado constante

 

Ao atuar com métodos ágeis, os profissionais costumam desenvolver um conjunto de habilidades e competências chamadas “soft skills”, entre elas, trabalho em equipe, aprender a dar e receber feedbacks, escuta ativa, administração de conflitos e negociação. “Ser humano não é igual um computador que dá para codificar, programar, não tem código-fonte. Cada um tem um jeito, uma maneira de expressar”, brinca Fabiano Milani, coordenador do MBA Business Agility & Agile Project Management da Faculdade de Tecnologia FIAP.

 

Ele mesmo conta que precisou se adaptar a novos modelos de trabalho e, claro, desenvolver habilidades comportamentais. Formado em matemática com bacharel em informática e técnico em processamento de dados, Milani trilhou boa parte da carreira na área de TI – foram 17 anos atuando com desenvolvimento de softwares. Até que veio o desafio de exercer a função de Scrum Master. Sem experiência com o tema, ele penou. “Tinha o viés de atuar como arquiteto de software. Quando me dei conta, vi que não tinha ‘soft skills’, como inteligência emocional. Precisei desenvolver”, conta. De 2008 para cá, dedica seu tempo a projetos de agilidade e começou a lecionar sobre o assunto há seis anos na FIAP.

 

Formada em análise e desenvolvimento de sistemas pelo Senac-RS, Gabriela Correa, 27 anos, trabalha com agilidade há seis anos. “Comecei quando eu trabalhava no modelo go-horse, sem padrão, sem processo, e estava iniciando na carreira”, lembra. Na época, ela não conhecia boas práticas de desenvolvimento de software, o que gerava “muita gambiarra”, e desconhecia também gestão de projetos. O resultado? Muito retrabalho, “bugs” e usuários insatisfeitos. Daí ela procurou práticas recomendadas no mercado para entender melhor os usuários e facilitar a manutenção dos sistemas.

De lá para cá, a profissional trabalhou na Thoughtworks, como consultora de desenvolvimento, com atuação em diferentes projetos nacionais e internacionais. Foi, ainda, Agile Coach na área de digital customer experience da Resource IT. Desde fevereiro do ano passado, é gerente de projetos sênior da BRQ Digital Solutions, onde atua como líder de cultura ágil. Em geral, Agile Coach é a pessoa que vai disseminar a cultura ágil na companhia, contribuindo para otimizar os processos de trabalho, assim como promover práticas que possibilitem entregas mais efetivas, de maior valor e com mais qualidade, explica Gabriela.

 

Para ela, o profissional pode ter diferentes bagagens, tanto uma experiência mais técnica como desenvolvedor, quanto um “background” mais de negócio, como a figura do “product owner”. “Por ser um profissional de perfil diverso, faz com que as empresas tenham expectativas diversas quanto ao papel de Agile Coach ou nem mesmo saibam como explorar este perfil de profissional”, observa ela. Por exemplo: o Agile Coach é contratado para resolver um problema de desempenho de uma equipe. Em casos assim, o profissional só é acionado quando o problema já existe, como insatisfação do usuário, talvez provocando problemas financeiros. “É uma atuação mais reativa”, diz Gabriela.

 

Formação prática


Os especialistas são unânimes: é preciso se preparar para ser um profissional ágil. Desde o ano passado, a FIAP oferece, em São Paulo, o MBA Business Agility & Agile Project Management. O curso passeia por temas que vão desde a estratégia da companhia até por que usar metodologias ágeis na operação do negócio. “O aluno sai do MBA com o cinturão do Batman e novas ferramentas para colocar em prática na empresa onde atua”, diz Milani. Com um ano de duração, o curso atende a todo tipo de profissional que deseja ingressar no universo de “agile” – a demanda tem sido variada, com profissionais de TI, marketing e advogados.

 

Ao longo de sua trajetória, por exemplo, Gabriela não parou de estudar. Fez cursos sobre variados temas, todos ligados à cultura da agilidade. Entre eles, Framework Scrum, Management 3.0, Lean Inception, Visual Thinking, Design Sprint, Facilitação, Team Building e Scaled Agile Framework. “Também tenho certificado de Scrum Master, Management 3.0 e Safe Agilist”, conta. Ela reforça que o dia a dia de um Agile Coach pode incluir fazer capacitações, “assessments”, gerenciar conflitos, facilitar dinâmicas de grupo, analisar métricas e gerenciar a expectativa dos stakeholders.

 

Criado há três anos, o Garage Criativa é um laboratório de inovação e funciona também como centro de formação profissional. Com 26 anos de experiência em projetos de TI, e passagens por Itaú Unibanco, Bradesco e Citibank, Marco Antonio da Silva deixou o mercado corporativo em 2010. Após um período conturbado na vida pessoal, em 2012 começou a redesenhar a carreira. “Fiz muitos cursos sobre agile, programação neurolinguística, apresentação, oratória e curso de coaching para entender sobre liderança de equipes e gestão de conflitos”, explica.

 

A partir daí, passou a atuar como Scrum Master em projetos de consultoria. Ainda como consultor, trabalhou em projetos como Product Owner e Agile Coach. Em meados de 2015, percebeu que queria levar os temas para outras pessoas, com uma pegada mais prática. Daí surgiu o Garage Criativa, cujo embrião foi um curso de “agile” para desempregados. Atualmente, há turmas abertas para cursos de Design Sprint 2.0, Design de Serviços, Introdução aos Métodos Ágeis e outros (veja lista completa).

 

Demanda aquecida

 

Agilidade é um tema que se mantém em alta no mercado, diz Gabriela, da BRQ Digital Solutions. “Existem muitas empresas que estão vivendo uma jornada de transformação ágil e precisam de profissionais que possam suportar esta evolução. E muitas outras que ainda nem imaginam como estas práticas podem potencializar seu negócio”, aponta. Enquanto a demanda está aquecida, o outro lado da moeda sofre com a baixa oferta de profissionais qualificados. Sinal de que há oportunidades para quem começar a ir atrás de conhecimento a partir de agora.

 

É preciso buscar competências que ajudem a estar mais centrado para desafios, diz Marco Antonio da Silva. Isso porque a dinâmica do dia a dia de projetos é uma dinâmica “mais agressiva” do que no passado. Uma dica que ele dá é trabalhar técnicas de meditação “mindfullness” (atenção plena, em português). Segundo ele, vale também buscar treinamentos para desenvolver habilidades de comunicação não violenta, gerenciamento de conflitos e programação neurolinguística (PNL).

 

Fácil não é. Um dos principais desafios é a transição de um modelo de gestão mais centralizado para um modelo de gestão mais descentralizado. Outro desafio é se preparar para trabalhar em um modelo de gestão mais descentralizado. “Historicamente somos educados desde berço a sermos comandados por alguém e não sermos o comando”, observa Vitor Massari, professor da FIA.

 

Learning agility

 

Agilidade de aprendizado (“learning agility”, em inglês) também pode ajudar na sua carreira. Assim como as metodologias ágeis, o conceito é relativamente novo, explica Tania Mara Lopes, diretora de gestão corporativa do Instituto Superior de Administração e Economia (ISAE – Escola de Negócios). “Essa mentalidade de aprendizagem é muito mais do que velocidade e flexibilidade, mas facilidade para que o aprendizado aconteça”, diz a professora.

 

O método trabalha com quatro eixos: agilidade interpessoal, mental, para mudanças e para resultados. Mas não só isso. O autoconhecimento permeia cada uma delas. Um exemplo: ter agilidade para resultados significa dar conta de entregar os projetos mesmo em cenários de constante mudança. Já a agilidade mental tem a ver com a capacidade de estabelecer paralelos e resolver problemas complexos. “O autoconhecimento passa por todos os tipos de agilidade e basicamente é ter clareza de propósito, ou seja, onde vai colocar foco e energia.”

 

O ISAE tem duas novas turmas previstas para o começo de 2020. Uma voltada para profissionais e consultores de RH, com duração de 24h e início em março. Já o curso “Learning Agility: competência do profissional exponencial” tem como público-alvo qualquer profissional que busque de desenvolver para o novo cenário do mercado de trabalho. Com média duração (70h), o programa é procurado, principalmente, por líderes.