Reskilling é aliado precioso na retomada pós-pandemia

Encontrar as lacunas de conhecimento é uma ação estratégia para qualquer companhia da era digital

Tiago Alcantara

20/05/2020

Imagine uma crise tão grande na qual você precisa passar um time inteiro do seu call center para um esquema de home office em um fim de semana. Foi nessa situação que o time do e-commerce Dafiti se viu depois da pandemia do Covid-19.

 

“O nosso maior desafio foi colocar o home office para o call center. O prédio onde nós estávamos teve alguns problemas com a questão do coronavírus e a gente não poderia mais operar de uma sexta para o domingo. E a teve que pegar todos os nossos colaboradores e colocar em home office”, conta Cristiano Hypollito, CIO da Dafiti em entrevista recente à IT Trends.

 

O que acontece que o que era uma situação provisória – como o trabalho distribuído no caso relatado – se mostra um promissor caminho para o futuro? A aquisição ágil de habilidades para lidar com esse novo normal passa por um processo de reskilling, também chamado de upskilling. A tendência, que já era abordada por algumas companhias, se torna vital em tempos turbulentos. A capacidade de se adaptar pode ser a diferença entre sobreviver ou não.

 

 

A aceleração tecnológica trazida de forma forçada por conta da crise ressaltou outra demanda latente: o desenvolvimento de novas habilidades no time. Em entrevista à IT Trends em março, o digital partner da PwC, Sérgio Alexandre Simões, explica que as lideranças precisam entender não apenas a importância do tema, mas que devem dispor de seus melhores colaboradores para esse processo. Assista:

 

Não é de hoje que gigantes do mercado estão de olho nesse tipo de atualização dos currículos de suas forças de trabalho. Amazon e Walmart, para citar apenas duas marcas globais, já investem milhões no retreinamento dos funcionários. Com a pandemia, o que mudou é que essa tendência de upskilling deve se expandir de forma ainda mais urgente entre companhias de todos os tipos.

 

O executivo da PwC ainda ressalta a importância de preparar as próximas gerações para que não exista um gap de conhecimentos já na entrada no mercado. “A transformação digital está alicerçada numa coisa chamada cliente. No comportamento do cliente, utilização do cliente, é olhando esse contexto que você deveria preparar os jovens [profissionais] hoje”, comenta.

 

Um levantamento da consultoria norte-americana McKinsey estimava, em 2017, que 375 milhões de trabalhadores devem passar por algum tipo de adaptação de habilidades ou mudar de função como influência de tecnologias como inteligência artificial e automação. Em uma sondagem mais recente, 87% dos líderes percebe ausência de habilidades na formação ou espera que esse tipo de gap se aprofunde nos próximos anos. E apenas metade deles têm um plano claro de como abordar o problema.

 

E a questão parece ainda mais urgente por conta da aceleração digital trazida pelo momento atual. Saber como se adaptar às condições e direcionar os colaboradores pode ajudar os negócios a sobreviverem aos tempos difíceis e inovar na era pós-pandemia.

 

Reskilling: como fazer?

 

Uma das vantagens dessa política de aprendizado/adaptação constante é que o próprio processo de aquisição de novos conhecimentos serve como fortalecimento do time. Afinal, quem pode prever quando virá o próximo momento de ruptura?

 

A consultoria norte-americana lista alguns passos para que as lideranças garantam que seus colaboradores estão prontos para a adaptação, recuperação e retomada de seus modelos de negócios tão logo a pandemia passe.

 

  1. Identifique as habilidades necessárias para recuperar e adaptar o seu modelo de negócios: essa talvez seja a tarefa mais urgente e envolve um mapeamento de geração de valor da empresa e dos talentos disponíveis.

 

  1. Desenvolva as habilidades críticas para o novo modelo de negócios: o passo seguinte é iniciar o upskilling da força de trabalho. Para isso, é importante visualizar quais são as habilidades que serão úteis mesmo que o papel desses funcionários mude dentro da companhia. Algo como um “kit básico de habilidades”.

 

  1. Reflita sobre as jornadas de treinamento: o planejamento de cada atividade e grupo crítico seja feito com uma visão setorial, mas também do todo. Ou seja, onde o upskilling será capaz de colaborar com o modelo de negócios seja em ações imediatas quanto no longo prazo. Aqui precisam ser levados em consideração o investimento para preencher lacunas de conhecimento.

 

  1. Inicie logo, teste rapidamente e aprenda: de acordo com levantamentos da McKinsey, companhias que tiveram sucesso em seus programas de reskilling conseguiram resolver suas dificuldades causadas pela falta de habilidades em novas tecnologias. Por outro lado, mesmo as empresas que não consideram seus programas bem sucedidos relatam aprendizados durante o processo – se sentindo mais preparadas para mudanças.

 

  1. Pense pequeno, tenha resultados grandes: pesquisas mostram que companhias com até 1.000 funcionários têm mais sucesso em seus programas de reskilling, isso porque elas conseguem ser mais ágeis, possuem uma visão mais clara de suas deficiências e não encaram como um problema a necessidade de começar de novo. Fica a dica.

 

  1. Proteja o budget (ou se arrependa depois): no final do dia, o orçamento para investir em treinamentos e adaptação de habilidades sempre precisa ser defendido. Ter a visão de que essa é uma ação estratégica ajuda a justificar esse tipo de processo. No fim das contas, o tempo perdido com a estagnação pode sair muito mais caro.

 

“A pandemia do coronavírus acelerou uma tendência na dinâmica do trabalho que já estava acontecendo por conta de automação e IA: mudando mercados e os papéis nos locais de trabalho. Como resposta, líderes devem procurar uma agenda abrangente de reskilling que desenvolva a expertise digital dos colaboradores, suas habilidades cognitiva, emocionais e de adaptabilidade”, aponta um trecho do artigo da consultoria norte-americana.

 

Para quem ainda precisa de algum encorajamento, o artigo assinado pelos consultores Sapana Agrawal, Sébastien Lacroix e Angelika Reich termina com um alerta: “Empresas não podem ser resilientes se suas forças de trabalho não forem”.