Robôs à obra: construção civil planeja salto tecnológico

Crise vai forçar gigantes a terem uma interface maior com novas tecnologias

Tiago Alcantara

26/03/2020

Depois de cinco anos, o setor de construção civil e engenharia ensaiava uma retomada: a venda de imóveis residenciais cresceu 9,7% em 2019. O setor como um todo registrou 1,6% de crescimento. Ou seja, com o estoque de imóveis disponíveis mais baixo, as construtoras se preparavam para fazer novas contratações e iniciarem novas obras. O canteiro estava pronto para novas obras. Então, veio a pandemia do Covid-19 e fez com que as empresas de construção e engenharia tivessem que rever orçamentos, planejamento e, em resumo, voltar quase para a estaca zero.

 

Se a crise colocou o pé no freio de uma série de investimentos, o momento de parada pode ser aproveitado para olhar para uma área que já abalou as estruturas de outros mercados: o digital. Um recorte preliminar por setor da pesquisa Antes da TI, a Estratégia – da IT Mídia – aponta a necessidade do segmento de se adaptar às novas tecnologias e de realizarem uma verdadeira mudança na cadeia de valor.

 

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Dados preliminares da 10ª edição da pesquisa, realizada com as 1.000 maiores empresas do Brasil e também com os principais fornecedores de TI do país, revelam que 76% dos CIOs dessas marcas acreditam que suas empresas devem passar por grandes mudanças nos próximos dois anos. Quando é feito o recorte apenas com líderes do setor de construção, o sentimento é próximo da amostra geral, com 69% dos respondentes acreditando em uma grande ruptura.

 

Vale lembrar que o levantamento foi realizado em um momento antes da crise envolvendo o Covid-19. Mas, como mensurar os impactos da pandemia?

 

Para a gerente sênior para transformação digital na Deloitte Clarisse Gomes, é preciso dividir os impactos da pandemia no setor de construção em duas ondas. Na primeira, mais imediata, há a reavaliação de prioridades de investimento e até uma redução no ritmo de atividades voltadas à inovação e tecnologia. Confira os principais trechos da entrevista em vídeo aqui.

 

Por outro lado, Gomes prevê um segundo momento, no qual é preciso olhar para o que está acontecendo na economia digital e entender como essas mudanças impactam de uma forma mais profunda modelo de trabalho e tendência de consumo. Mudanças que vão desde documentação digital até o trabalho de casa.

 

 

“Falando em modelo de trabalho, o setor de construção é extremamente resistente ao trabalho remoto. São raríssimos os casos em que a gente tinha exemplos de pessoas que tratavam home office para o time corporativo, principalmente. Acho que vai ser uma boa oportunidade das pessoas entenderem os benefícios e migrarem para um modelo de trabalho mais digital”, comenta a gerente sênior da Deloitte.

 

Linha de montagem

 

Outro ponto que vale atenção é a importância de “industrializar” parte do processo de obras e, assim, reduzir a dependência de pessoas no canteiro, além de digitalizar uma série de processos. Pode parecer um absurdo para profissionais de outros segmentos, mas os líderes de TI em companhias de engenharia ainda têm o desafio de fazer com que os diferentes times abandonem o papel. De acordo com um estudo da McKinsey, globalmente, o setor é o segundo menos digitalizado.

“No ano passado, trabalhamos no nosso Planejamento Estratégico definindo iniciativas para otimizar o modelo de negócios atual e propiciar o crescimento com risco planejado. Elas abrangem todas as áreas da empresa e se relacionam com transformação digital de diversas formas. O primeiro passo, por exemplo, será a digitalização dos nossos negócios”, explica Elzira Piazza, gerente de tecnologia da informação da Engeform.

 

Construção

 

Além da possibilidade de reunir informações das obras do grupo e aplicar uma camada de inteligência a essas informações, a executiva explica que o processo passa pela criação de indicadores “que realmente tragam uma visão mais adaptada ao cenário que estamos vendo hoje”. A principal head de tecnologia da construtora complementa que “é preciso ter coragem para jogar fora métodos ultrapassados”.

 

Não à toa, os dados da pesquisa da IT Mídia – Antes da TI, a Estratégia – revelam uma propensão do setor a investimentos maiores em automação de processos, big data/analytics e inteligência artificial.

 

Piazza conta que, na Engeform, a robotização está sendo utilizada em sete projetos piloto, que otimizam tarefas maçantes. Com auxílio do departamento de TI, a tecnologia está sendo utilizada para a descoberta de novos modelos de negócio, além de aumentar margens e competitividade.

 

O grupo – que também atua no segmento de energia e no setor imobiliário – ainda planeja expandir seus esforços para dar início a iniciativas de industrialização até o final deste ano ou no início de 2021. Isso significa que o canteiro de obras vai funcionar como uma linha de montagem de elementos que chegam prontos, substituindo em partes o processo de alvenaria tradicional.

 

Engenharia em digitalização

 

O processo permite reduzir a dependência das pessoas no canteiro de obras. Para a gerente sênior para transformação digital da Deloitte, industrialização e digitalização são demandas latentes para o mercado.

 

“Acho que a crise traz um aprendizado sobre a necessidade de ter uma construção mais digital, mais online, com menos papel e de alguma forma acho que isso pode acelerar e pelo menos colocar quem estava muito fora da fronteira tecnológica, colocar essas empresas em um ambiente de mais contato e mais interface com as tecnologias”

– Clarisse Gomes, Deloitte

 

Das tecnologias que chegaram há alguns anos no setor, parece um consenso de que a Modelagem da Informação da Construção ou BIM, na sigla em inglês é o futuro. O conceito trabalha com um tipo de modelagem em 3D que são mais fáceis de assimilar e mais fiéis ao produto final. Some a isso a gestão de informações de todo ciclo de edificação e a esperança é que o segmento pegue se eleve um pouco mais próximo dos patamares internacionais.

 

 

Outro bloco que já está bem assentado nesse processo são os drones, que já são utilizados para funções como monitoramento de produtividade e prospecção de dados para terraplanagem. Por outro lado, recursos como a impressão 3D ainda não são um consenso entre os especialistas.

 

Nesse caso, a resposta é bastante tradicionalista: não adianta usar uma tecnologia só porque está na moda.

 

Derrubando muros

 

Ao mesmo tempo em que ainda olham com certo espanto para algumas soluções comuns a outras indústrias, mobilizar suas organizações é um desafio para muitos CIOs de companhias de engenharia e construção. De acordo com os dados da pesquisa Antes da TI, a Estratégia, 61,5% dos entrevistados apontam a resistência às mudanças e falta de uma cultura de inovação como os dois principais riscos para a implantação de uma estratégia de TI bem sucedida em suas companhias.

 

Não é surpresa que durante os cinco anos em que as gigantes do setor tiveram dificuldades, o Brasil tenha ganhado uma série de unicórnios, alguns deles até mesmo dentre as chamadas construtechs – empresas de tecnologia voltadas para resolução de problemas dessa área. Apesar da taxa de longevidade de startups não ser tão grande, é o suficiente para que a troca influencie o mercado.

 

O contato com startups pode capturar um pouco da leveza que as gigantes do setor tanto precisam

 

Para se aproximar desse ecossistema, a Engeform criou o Okara Hub em parceria com outras empresas do segmento. A ideia do espaço é estar alinhado com o que há de inovador nas áreas de Engenharia, Construção Civil, Desenvolvimento Imobiliário e Cidades Inteligentes.

 

Um dos responsáveis pela iniciativa, o especialista em gestão de conhecimento e inovação Rafael Alpire conta que a ideia é estar na fronteira do conhecimento sem colocar em risco qualquer obra da empresa. “Como estratégia de empresa [estar próximo das startups] é fundamental. A gente trabalha com inovação aberta, ou seja, trazer a inovação de fora para dentro. É uma questão de evolução e sobrevivência”, explica Alpire.

 

Projeto: construtech

 

No primeiro trimestre de 2020, o hub iniciou seu terceiro ciclo de tração com 13 novas startups dos ramos de engenharia, construção civil, desenvolvimento imobiliário e cidades inteligentes. Ao todo, 23 construtechs já passaram pelo Okara e geraram R$ 2 milhões em negócios durante o período de aceleração. Foram iniciados 12 projetos-pilotos para testar soluções nos canteiros de obras da construtora em vários lugares pelo Brasil.

 

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A iniciativa trabalha com um sistema de equity free e open innovation. Ou seja, não há compromisso de investimento nas startups e as descobertas são compartilhadas. Em contrapartida, as empresas aceleradas recebem mentorias, oportunidades de negócios, diagnósticos de problemas reais de grandes empresas e têm a oportunidade de escalar sua atuação e firmar contratos mais longos com cada uma das companhias envolvidas no hub.

 

“É preciso ter coragem e jogar fora métodos ultrapassados”

– Elzira Piazza, Engeform

 

Além de “trazer para perto” as startups, a tendência é que o setor esteja mais integrado com clientes, parceiros e prestadores de serviço. “é muito importante para fomentar o negócio como um todo, comenta Piazza. Faz todo sentido, a medida que mais companhias passam a oferecer soluções para um mesmo problema, a camada de serviços e fornecedores pode ajudar a otimizar toda a rede.

 

Mas, da mesma forma que não vale a pena investir em uma tecnologia só com base no fator novidade, é importante que as empresas saibam qual o grau de envolvimento e comprometimento querem colocar nessas parcerias. Podemos listar, principalmente, três momentos:

 

  • Iniciativas de baixo comprometimento – são focadas em cultura, desenvolvimento, eventos.
  • Iniciativas de médio comprometimento – contratação de startups, desenvolvimento de pilotos, desafio com alguma outra empresa concorrente para resolver problemas em comum
  • Iniciativas de alto comprometimento – investimento, aquisição, internalização, desenvolvimento tecnológico.

 

“Não é uma ruptura em termos de competição, mas muito mais em termos de colaboração, sobre como a gente amplia um pouco esse leque para ir além dos principais nomes da indústria”, explica a gerente sênior de transformação da Deloitte.

 

Quando a pandemia do Covid-19 passar, as companhias bem preparadas podem usar o alicerce digital para manter um futuro mais sólido. E, se for possível, encontrar inovações e metodologias que agilizem e muito o dia a dia corporativo. Fato é, como diria o dito popular, não é possível agir como “engenheiro de obra pronta” – o negócio é realmente ter uma postura de mãos à obra. Ou, no caso, aos dados.