Tecnologia desempenha papel duplo na retomada pós-covid

Live promovida pelo MBD discute importância da tecnologia, mas líderes ressaltam que mudanças culturais, de processos e nas pessoas são igualmente importantes

Marcelo Gimenes Vieira

16/09/2020

O papel econômico da tecnologia em uma economia cada vez mais digital é indiscutível, uma vez que ela serve tanto para dar mais eficiência e reduzir custos das organizações em tempos de crise como impulsionar novos projetos em tempos de expansão. A pandemia, no entanto, oferece um cenário singular: há uma crise e a necessidade de gastar melhor, mas também oportunidades trazidas por uma transformação forçada e por uma digitalização ainda maior das demandas dos clientes.

Ou seja, a tecnologia exerceu papel fundamental durante a pandemia e que deve ser intensificado ainda mais durante a retomada – mas, claro, ela não é o único elemento crucial.

Esse foi o tema que reuniu nesta terça-feira (15) os executivos Fabio Costa, general manager da Salesforce Brasil, e Pascal Toque, diretor de IoT & IoC da green4T, em mais uma live da série Brasil Digital Talks, promovida pelo Movimento Brasil Digital (MBD). O debate intitulado “O papel da tecnologia na retomada” foi mediado pelo diretor executivo do Movimento Brasil Digital, Vitor Cavalcanti – e ainda pode ser assistida na íntegra no YouTube.

Para os especialistas, a relevância da tecnologia tende a continuar crescendo porque a pandemia serviu como evento catalisador da transformação digital, principalmente ao demonstrar suas virtudes em um momento de crise tão severa – afinal, a única alternativa durante a pandemia era fechar as portas. No entanto, ressaltaram, não se trata de um processo novo.

“Entendo que junto com a conscientização gerada pela pandemia, esse processo vai continuar sendo o normal nas empresas e vai se acelerar. É irreversível e vai precisar acontecer por conta da competitividade que força uma mudança na relação com os clientes”, refletiu Pascal Toque. “Cabe agora entender se vamos ter a capacidade de manter ou aumentar esse investimento, e acredito que é uma tendência relevante para o Brasil se posicionar de forma competitiva com relação a outros países já mais avançados.”

Nesse caminho de transformação a tecnologia é um de muitos aspectos, e isso também foi tema do debate. A mudança de cultura necessária também deve continuar e intensificar nas empresas, sempre em busca de ambientes de trabalho mais colaborativos e automatizados, com processos mais ágeis e eficientes.

“Quando falamos em estratégia de adoção de tecnologia nas organizações o caminho foi relativamente fácil e as colocou no novo mundo que vai chegar – mesmo que a gente não saiba exatamente o que vai chegar”, ponderou Fabio Costa. “Mas a tecnologia tem que trabalhar para as pessoas. O que vai fazer diferença na performance da organização é ter as pessoas corretas nas posições corretas e trabalhando em conjunto de forma correta. Sem isso pode haver efeitos colaterais não desejáveis.”

Um desses efeitos, ponderou o executivo da Salesforce, é a perda de valor das relações humanas. Para ele, a “conversa no cafezinho ou almoço com o cliente” traz muito valor e permite que a colaboração realmente aconteça no dia a dia das organizações. Essas interações aliás são fundamentais para a inovação, e devem ser preservadas justamente na tentativa de evitar certos efeitos colaterais decorrentes do uso intensivo de tecnologia e automação.

 

Necessidades brasileiras

Apesar de conhecermos (e reconhecermos) todos esses elementos como fundamentais para a transformação digital das organizações no período da retomada, os especialistas que participaram da live reconheceram que o Brasil ainda não está pronto. Falta infraestrutura, por exemplo, seja para o tráfego de informação nas redes de telecom ou na coleta e geração de dados em dispositivos e sensores de aplicações IoT. A capacidade de processamento de nossos data centers também é pequena se comparada a de outros países mais desenvolvidos.

“Quando se está em São Paulo, um estado mais desenvolvido, mesmo tendo limitações de conectividade que dificultam a conexão por conta da oscilação de banda, [percebe-se que] o problema é muito maior em estados mais remotos”, ponderou Toque. “Hoje o Brasil tem carência em todas essas camadas.”

No entanto ele acredita que, mesmo com a pandemia suspendendo projetos de ampliação, eles devem ser retomados para atender a demanda crescente no pós-pandemia. Isso se deve tanto pelo aumento da consciência a respeito da importância da tecnologia como em uma cultura de trabalho mais colaborativa, intensificada com o movimento de teletrabalho.

“Mas para tudo isso funcionar se requer que a informação seja tratada em tempo real, alimentando sistemas de gestão das organizações, o que só será possível com investimento contínuo em infraestrutura”, ressaltou o executivo.

Fabio Costa lembrou que isso é ainda mais importante quando se considera que a infraestrutura de tecnologia corporativa do futuro é hibrida, ou seja, se vale tanto de cloud computing descentralizada como de data centers próprios dentro dos perímetros das companhias. Para ele o grande desafio é como planejar e fazer a transição, inclusive considerando que, após a popularização da vacina contra o novo coronavírus, boa parte das pessoas vai voltar a atuar em escritórios.

“Não vamos voltar exatamente ao que tínhamos antes, mas não tão longe. Talvez entre 70 e 80% das empresas manterão os escritórios, mas o que vai mudar é o acesso remoto, que vai continuar em 90%, e as pessoas vão continuar trabalhando de casa”, disse. “Como fazer esse mundo híbrido ser viável do ponto de vista de infraestrutura, aplicações e cultura? Eu diria que temos um belo desafio.”

O debate completo sobre o papel da tecnologia no pós-pandemia está disponível no canal do Movimento Brasil Digital no YouTube. Assista: