Você está pronto para trabalhar lado a lado com robôs?

Uma nova geração de máquinas promete ser protagonista de uma das grandes transformações do mundo do trabalho nas próximas décadas

Sergio Teixeira Jr., de Nova York

09/10/2019

Robôs trabalham ao lado de humanos há muitos anos, em fábricas do mundo inteiro – mas sempre dentro de jaulas. Os grandes robôs industriais são máquinas precisas e eficientes, mas também potencialmente letais. Não estamos falando de cenários de filmes de ficção científica em que os robôs se rebelam contra seus criadores, muito menos de criaturas biônicas como o Terminator, da série de filmes “Exterminador do Futuro”, muito pelo contrário. O perigo oferecido por esses robôs é justamente a falta de inteligência. Em 2015, um funcionário de uma fábrica da Volkswagen em Baunatal estava trabalhando dentro do espaço restrito para as máquinas, foi confundido com uma peça de carro e esmagado contra uma chapa de ferro. O homem foi levado ao hospital, onde acabou morrendo.

 

Mas existe uma nova geração de robôs, mais gentis e “conscientes” do ambiente à sua volta, que se libertou das jaulas e agora trabalha lado a lado dos seres humanos. Graças a avanços formidáveis nos sensores e a sistemas de inteligência artificial que residem na nuvem, essas máquinas já percorrem corredores de supermercados, perambulam por armazéns e até mesmo por algumas calçadas, fazendo entregas. A convivência pacífica — e segura — entre criador e criatura deve ser uma das grandes transformações do mundo do trabalho nas próximas décadas.

 

Receba somente o que importa sobre transformações digitais

A fábrica holandesa DEONET, da cidade de Eindhoven, na Holanda, é um exemplo do que pode vir a ser uma cena corriqueira no futuro. A empresa produz brindes promocionais e exporta para mais de 60 países. Na linha de produção, um YuMi, robô criado pela suíça ABB, divide uma bancada com funcionários de carne e osso. O YuMi (o nome significa literalmente “you” e “me”, ou eu e você) é um robô com dois braços articulados e capaz de realizar tarefas com precisão, como aplicar gotas de cola em pontos precisos de pen drives. “No começo os funcionários tiveram de se acostumar à ideia de ter um robô no chão de fábrica, mas depois de perceber que ele é seguro e aumenta nossa produtividade, o YuMi foi acolhido como membro da equipe”, disse numa entrevista recente Joanie Slegers, uma das diretoras da fábrica.

 

Uma outra característica que diferencia os robôs da nova geração, como o YuMi (imagem abaixo), é que eles são mais adaptáveis e flexíveis. Máquinas de grandes indústrias, como a automotiva, são extremamente complexas e precisam de suporte intensivo em caso de reprogramação. Os novos “cobôs” — robôs colaborativos, um termo propalado pela indústria — são capazes de aprender novas tarefas sem a necessidade de assistência do fabricante.

 

 

Nos armazéns da Amazon, robôs baixinhos e sobre rodas (que lembram o aspirador doméstico Roomba), percorrem os corredores transportando pacotes e às vezes prateleiras inteiras. Em vez de fazer os funcionários caminharem quilômetros por dia para fazer o picking dos produtos, os robôs entram embaixo das prateleiras, as erguem e as levam até o humano mais próximo. A cena impressiona: centenas de robôs fazem um balé, desviando um dos outros e carregando a prateleira certa, para o lugar certo, na hora certa. A Amazon já tem mais de 100 mil desses robôs trabalhando em seus armazéns.

Essa eficiência é fundamental para uma empresa que trabalha com bilhões de encomendas todos os anos. E agora a Amazon também está apostando na automatização para resolver o problema da última milha. Desde agosto passado, o robô batizado de Scout já é visto nas ruas da cidade de Irvine, no sul da Califórnia. Ele tem o formato de um carrinho, o tamanho de um cooler e conta com seis rodas. O Scout vai até a porta das casas, uma tampa se abre e o cliente retira sua encomenda. Por enquanto, seis robôs participam do projeto piloto. O objetivo é certificar-se de que o Scout seja capaz de navegar com segurança os “obstáculos” típicos de uma calçada: pedestres, animais de estimação, skatistas e latas de lixo.

 

Mas o veículo autônomo, um dos cálices sagrados da interação segura entre homem e máquina, ainda deve levar um bom tempo para circular livremente pelo asfalto. A Waymo, empresa da Alphabet (holding que controla o Google), anunciou que três de suas minivans autônomas vão começar a mapear Los Angeles. E as informações colhidas pelos carros vão gerar algo muito diferente do que nós humanos entendemos por mapa. O objetivo é capturar detalhes tridimensionais das vias urbanas, incluindo meio-fio, hidrantes, buracos, faixas de pedestre e assim por diante.

 

 

A expectativa é que um dia a empresa possa oferecer um serviço de táxi inteiramente automatizado, essencialmente um Uber sem o motorista. Quando esse dia vai chegar, entretanto, ninguém se arrisca a dizer. A Waymo já opera um serviço nesses moldes na cidade de Phoenix, mas não há nenhuma previsão de quando os carros autônomos serão permitidos nas ruas. A responsabilidade em caso de acidentes, para ficar apenas em um tema, ainda é nebulosa: a culpa é do fabricante do carro, da empresa que fez o software, da operadora de telefonia celular (que não garantiu uma conexão de boa qualidade)?

 

Em março de 2018, um carro autônomo do Uber atropelou e matou uma mulher que atravessou a pista fora da faixa. O veículo tinha um operador no banco do motorista, mas o controle era do computador. O acidente levou a empresa a suspender todos os testes com veículos autônomos por nove meses e a considerar o abandono da iniciativa. Em junho deste ano, a Uber apresentou uma nova geração de seu carro que dispensa o motorista. Produzido em parceria com a Volvo, o novo modelo tem mais sistemas redundantes e deve entrar em testes nos próximos meses.

 

 

E a segurança não é o único temor do ser humano em relação aos robôs: e se eles roubarem nossos empregos? Apesar das previsões catastrofistas, a realidade não deve ser tão sombria. O Walmart usa 300 robôs da Bossa Nova Robotics para checar se há produtos em falta nas prateleiras. Batizado de Robert, o robô executa uma das funções mais repetitivas e menos recompensadoras das lojas. Outras 1 500 máquinas limpam os corredores. E não são apenas os grandes varejistas os interessados em automatizar trabalhos ingratos. A rede Schnuck Markets, que opera mais de cem lojas no Meio Oeste americano, usa nove robôs chamados Tally para contar todas as mercadorias dispostas. Eles são capazes de contar até 30 mil produtos diferentes em três horas — três vezes mais que um humano, e com muito mais precisão.

 

Sarjou Skaff, CTO e co-fundador da Bossa Nova Robotics, diz que um dos maiores equívocos em relação a essa nova geração de máquinas — e em relação à inteligência artificial como um todo — é superestimar a inteligência dos robôs. “As máquinas são boas para encontrar padrões. No fim das contas, o bom uso desses padrões, o que realmente importa, é tarefa para os humanos.”