Histórias de quem transformou a carreira com tecnologia

Conheça as jornadas de quem conseguiu mudar rumo de suas vidas profissionais para melhor

Françoise Terzian

26/12/2019

A tecnologia transformou-se no meio para muitos profissionais atingirem um fim e, de forma surpreendente, mudarem completamente de vida. Um dos casos mais emblemáticos é o da jovem Tuanny Ruiz, que mudou de área, de país e realizou um sonho. Aos 26 anos, a paulistana hoje mora em Toronto, no Canadá, e é engenheira de software da Home Depot. Movida a desafios e antenada em cada movimentação desse acelerado mundo da transformação digital, Tuanny está, finalmente, satisfeita com sua realidade.

 

Tuanny, no entanto, nem sempre esteve satisfeita. Em meados de 2016, ela era uma jovem formada em Engenharia Civil descontente com sua realidade. “Eu trabalhava com acompanhamento, gerenciamento de obras e sentia falta de inovação. As construtoras não queriam aplicar processos novos e nem usar materiais novos. E eu vivenciava o mesmo ciclo há anos, entrando e saindo de construtoras. Estava desgostosa da área e queria fazer algo desafiador, algo que eu aprendesse sempre”, recorda.

 

A sensação de fazer a mesma coisa pelo resto da vida a assustava. Foi então que ela se abriu com uma amiga – essa, por sua vez, namorava com um programador. A amiga então sugeriu que ela tentasse aprender programação. Foi assim que, ao pesquisar, Tuanny descobriu o PrograMaria, iniciativa que visa empoderar meninas e mulheres por meio da tecnologia.

 

Em setembro de 2016, ela se aplicou para fazer um curso que ensina o básico da programação como HTML, CSS e Java Script. “O direcionamento foi incrível. A partir dali, eu sabia para onde ir.” Por receio de sair da Engenharia, ela continuou na área até meados de 2017, quando seu contrato com a empresa acabou.

 

A partir daí, Tuanny decidiu se dedicar full time nos estudos da programação. Nesse meio do caminho, soube de uma espécie de hackathon (maratona de programação) de duas semanas na Espanha, cujo objetivo era estimular que a população se envolvesse mais com política e democracia. Ela aplicou, foi selecionada e passou duas semanas intensas de aprendizado. Fora do país, mandou currículos e retornou ao Brasil com algumas entrevistas agendadas.

 

Em dezembro de 2017, ela iniciou o primeiro trabalho na área, no Jornal Nexo. Depois de um tempo, Tuanny sentiu que já estava muito boa no que fazia e decidiu que era hora de buscar um desafio maior. Essa decisão a levou a atuar na plataforma de RH Revelo. “Aprendi muito lá com meu chefe, que me ensinou muito.”

Embora estivesse feliz no emprego, Tuanny sempre nutriu o sonho de fazer um intercâmbio e morar fora. “Sem dinheiro, sempre tive a consciência que essa ida para fora teria que acontecer por meio de uma bolsa de estudos ou uma proposta de trabalho, coisa que a engenharia jamais teria me proporcionado.”

 

De férias em Toronto (Canadá), no final de 2018, Tuanny participou de uma feira de contratação. Deu certo. Ela recebeu uma proposta e se mudou. Foi atuar como engenheira de software da Askuity, posteriormente comprada pela Home Depot, hoje sua contratante.

 

“A tecnologia mudou minha vida. Morar fora era um dos meus maiores sonhos e a tecnologia me proporcionou isso e também meu desejo de sempre me atualizar e estudar coisas diferentes. Às vezes, estudo coisas que nem uso no meu dia a dia, mas que sempre me ajudam em uma coisa ou outra, mesmo que não seja no meu trabalho.” A tecnologia a ajudou também no aspecto financeiro, já que paga melhor do que em seus tempos de engenharia.

“A tecnologia mudou minha vida. Morar fora era um dos meus maiores sonhos e a tecnologia me proporcionou isso”

 

Do design para TI

 

Outro caso de mulher que teve a vida transformada pela tecnologia é da paulista Laura Lemos, de 27 anos. Ela nasceu em Piracicaba, atualmente mora em Porto Alegre e, em janeiro, muda-se para Recife por conta de um trabalho novo. Antes de mudar de área, ela era designer gráfico/editorial e diretora de arte. Trabalhava exclusivamente com mídias offline. “Nessa época, sempre fui freelancer, pois nunca consegui emprego fixo na área”, recorda. Hoje, ela é Experience Design Consultant na ThoughtWorks, consultoria global de software. Mas só até janeiro. Laura continuará na mesma área, porém serei promovida.

 

“Dentro da área de TI cheguei em lugares que eu ainda não havia alcançado enquanto designer gráfico. Tive meu primeiro trabalho formal com carteira assinada numa multinacional, tive a oportunidade de viajar para a China para participar de um treinamento e diversos outros lugares para palestrar e participar de eventos da área. Tive a oportunidade de ser professora e mentora para adolescentes que, assim como eu, não se viam na área de tecnologia. Conheci pessoas incríveis, cresci muito enquanto profissional e hoje tenho a oportunidade de escolher onde eu quero trabalhar”, conta.

 

A grande maravilha da tecnologia, explica, são as múltiplas possibilidades de carreira que essa área te dá. “Hoje eu posso dizer que não tenho medo de ficar desempregada, pois sei que é uma área onde existem mais vagas do que pessoas capacitadas. Estou num lugar privilegiado da sociedade, gostaria que mais pessoas como eu pudessem ocupar esse espaço.”

 

Para chegar nesse momento atual de satisfação, Laura teve que se reinventar. Ela terminou seu Master em Design Editorial em 2014, na época em que muitas editoras estavam fechando. “Eu, recém formada num lugar de prestígio, não conseguia emprego na área simplesmente por não existirem vagas. As poucas vagas que tinham pagavam muito mal e queriam que você fizesse muito. É pagar um salário de júnior e exigir que a pessoa entregue como sênior”, admite.

 

Depois de alguns anos como freelancer, Laura começou a ficar frustrada com a área, visto que não enxergava oportunidades. Enquanto pensava em fazer outras coisas, ela por acaso se deparou com um anúncio da Programaria dizendo que estavam abrindo turma para mulheres que queriam aprender a programar. “Eu me inscrevi sem grandes expectativas, mas acabei passando no curso. Fui umas das 25 aprovadas dentre quase 1.000 inscritas. Fiz o curso e minha carreira mudou.”

 

Ela conheceu várias pessoas que trabalhavam com tecnologia e fez seu primeiro contato com a ThoughtWorks na formatura do curso. Poucos meses depois, ela estava empregada, arrumando as malas para fazer o treinamento na China.

 

Para chegar ao posto atual de diretor de Serviços Financeiros da Unisys para a América Latina, Luciano Quintela teve uma longa trajetória iniciada nas Forças Armadas. Formado em Publicidade, em paralelo, ele fez escola militar. Por nove anos, ele atuou como Oficial do Exército Brasileiro. Como Tenente de Infantaria, atuou primeiramente em funções de combate, realizando diversas operações militares em distintas regiões do país, inclusive na Amazônia. Depois, foi trabalhar com  na comunicação social do Comando Militar do Sudeste em São Paulo.

 

Quintela estava no comando militar do sudeste em São Paulo e já batendo os oito anos no Exército, quando começou a preparar sua saída, pois era oficial temporário e, pela legislação da época, poderia atuar até o prazo máximo de nove anos nas Forças Armadas.

 

Foi assim que ele migrou para o setor financeiro, onde atuou por 14 anos entre Banco Real, Itaú e Santander. A estreia foi no Real, para cuidar da gestão do programa voltado às Forças Armadas, o Real Forças Armadas. Sua função era de negócios, realizando a gestão de 180 postos bancários em unidades militares de produtos e serviços financeiros para militares das Forças Armadas.

 

Foi ao migrar para o Itaú e, posteriormente, o Santander, que Quintela passou a se aproximar da tecnologia por conta dos negócios digitais e apps. Com o conhecimento adquirido em transformação digital em bancos, o executivo fez sua estreia em uma gigante de TI ao começar a trabalhar para a Unisys, há dois anos. Seu foco: ajudar os bancos, um dos mercados que mais sofreu mudanças disruptivas, a se transformarem digitalmente.

 

“Sentei do outro lado da mesa, de cliente para fornecedor”, conta Quintela. Para isso, teve que desenvolver conhecimento técnico. Aos 44 anos, ele diz que a tecnologia trouxe desafios depois dos 40, obrigando-o a desenvolver novas habilidades, uma vez que o processo em TI é muito dinâmico e evolutivo, o que exige um aprendizado constante. “Olhando sempre para o futuro, mapeando as tendências do negócio, utilizando das tecnologia emergentes.”

 

Hoje, Quintela é responsável pela estratégia e portfólio de produtos da Unisys para o setor financeiro na América Latina, realizando a interface entre o time de estratégia global e os times locais.

 

Advogado pós-transformação digital

 

O advogado Marcelo Leonardo Cristiano, sócio do escritório Fraga, Bekierman & Cristiano Advogados, não mudou de área. Mas teve, graças à tecnologia, sua rotina modificada (para melhor). Como ele explica, o mundo jurídico tem como característica ser mais tradicional e um pouco resistente a inovações tecnológicas. Isto mudou um pouco nos últimos anos.

 

Os avanços se deram tanto no uso da tecnologia no dia a dia como na especialização dos profissionais para atender demandas relacionadas a novos temas, como Blockchain e Inteligência Artificial. “Conseguimos implementar em nosso escritório algumas ferramentas de gestão, controle do fluxo de trabalho e  compartilhamento de informações. Além disso, criamos um desk especializado em tecnologia, sendo que o tema principal nos últimos anos tem sido Blockchain (e assuntos relacionados)” conta Cristiano.

 

Ele passou a compreender o uso da tecnologia sob outra óptica, o que resultou em uma melhoria na qualidade da relação com o cliente e da prestação de serviços. Entender sobre novas tecnologias, adotar soluções para nossos desafios diários e ter a mente aberta a novas oportunidades representam um grande diferencial.  “No nosso caso, isto permite auxiliar os clientes de forma mais eficaz, pois compreendemos os pontos jurídicos sensíveis relacionados a diversas tecnologias e as possíveis consequências em diversas áreas do direito”, conta Cristiano.

 

Além disso, o escritório utiliza as ferramentas para gestão de atividades, dados, iniciativas internas/externas e troca de informações que agilizam e organizam o funcionamento do escritório. Entender a fundo o Blockchain foi e ainda é resultado de estudo contínuo e coletivo sobre a tecnologia. “Iniciamos os estudos com a leitura de livros, notícias e artigos, além da promoção de debates com a participação de pessoas de fora do escritório.” Há alguns anos, o escritório criou o Blockchain Desk, grupo formado por advogados e estagiários que se dedica a estudar a tecnologia, incluindo a análise dos aspectos jurídicos e técnicos no Brasil e no mundo.

“Há alguns anos, o escritório criou o Blockchain Desk, grupo formado por advogados e estagiários que se dedica a estudar a tecnologia, incluindo a análise dos aspectos jurídicos e técnicos no Brasil e no mundo”

Ao longo dos últimos anos, Marcelo fez cursos sobre a tecnologia Blockchain e programação de smart contracts, além de participar de grupos de debate sobre a tecnologia formados por integrantes de diferentes setores – jurídico, técnico, empresarial, acadêmico, etc. Ele também passou a dar palestras e aulas sobre o tema em universidades, institutos e eventos diversos.