Uso de IA no direito provoca reinvenção da carreira de advogado

Escritórios tradicionais têm investido em tecnologia e novos modelos de trabalho para melhorar produtividade e reduzir custos

Danylo Martins

10/12/2019

Carol faz parte do time do escritório Urbano Vitalino Advogados desde o ano passado. Desenvolvida por meio da plataforma Watson, da IBM, a “advogada-robô” ganhou forma ao longo do tempo, aprendendo a realizar uma série de atividades no dia a dia, como extrair informações de cadastros e processos, além de sugerir estratégias de atuação a partir da análise de decisões tomadas por juízes no Brasil. Para os profissionais do escritório, é uma mão na roda, ou melhor, na máquina.

 

Os especialistas são unânimes: a adoção de inteligência artificial (IA) no direito não resultará no desaparecimento do advogado, mas sim significará uma espécie de reinvenção da carreira. É um movimento que veio para ficar, e quem se preparar antes vai conseguir atravessar as transformações tecnológicas sem tantos sobressaltos. De olho nisso, escritórios tradicionais, como o Urbano Vitalino Advogados, que soma 82 anos de atuação, têm investido em soluções de IA para melhorar produtividade e reduzir custos.

 

“É um modo novo de se trabalhar no direito. A tecnologia funciona como uma ferramenta de apoio para melhorar a qualidade e velocidade de atuação dos advogados, como na leitura e busca em grande escala de jurisprudências ou montagem de peças”, explica Bruno Souza, advogado responsável pela área de inovação do Urbano Vitalino Advogados.

 

Não custa lembrar que tamanha eficiência do robô, no caso a Carol, é fruto de bastante treinamento. Ou seja, ela toma decisões baseada no que aprendeu com seres humanos. Claro que a decisão final é e sempre será de um advogado. “A pessoa deixa de perder tempo procurando informação e também passa a pensar mais estrategicamente”, observa Souza. Com apoio da Carol, o escritório passou a ter um índice de acerto de 98,5% em informações de cadastro, percentual que era de 74% antes da adoção do robô.

“É um modo novo de se trabalhar no direito. A tecnologia funciona como uma ferramenta de apoio para melhorar a qualidade e velocidade de atuação dos advogados”

Novos formatos de trabalho

 

Desde 2009, o JBM Advogados, de São Paulo, investe em automação e novos formatos de trabalho. Também pudera: especializado em contencioso de massa (defesa de empresas com grande número de processos parecidos), o escritório começou com 90 mil processos em 2008, número que cresceu substancialmente de lá pra cá, chegando a atingir 350 mil processos em carteira e 10 mil audiências por mês.

 

O jeito foi mudar a forma de trabalhar: da organização tradicional em células, os profissionais passaram a atuar em um modelo de esteiras de trabalho, como controle de processos, ação nova, tutela, auditoria, entre outras. “Tinha muita repetição de atividades. Com o modelo de esteiras, a partir de 2012, tivemos pelo menos de 35% a 40% de redução de custos”, conta Renato Mandaliti, sócio do Mandaliti Advogados.

 

O passo seguinte foi começar a investir em inteligência artificial. O motivo? Entre 68% e 72% de todas as atividades executadas no escritório não eram tarefas prioritárias de advogados, por exemplo, recolher custas e encerrar processos. “Eram tarefas que representavam um volume grande de trabalho”, afirma Mandaliti. Dessa constatação nasceu, em 2013, a Finch Soluções, uma das primeiras legaltechs ou lawtechs no Brasil, como são chamadas as startups do setor jurídico.

O negócio teve origem dentro do JBM Advogados, mas caminha com as próprias pernas. Hoje, atende departamentos jurídicos de grandes empresas e escritórios de advocacia. Segundo Mandaliti, existem duas grandes aplicações de IA: leitura, intepretação e classificação de documentos, como atas de audiências, e extração de padrões a partir de situações que se repetem. Com mais de 800 funcionários distribuídos em um escritório em São Paulo e uma operação de tecnologia em Bauru, a startup busca diminuir a distância entre o setor jurídico e a tecnologia.

 

Adaptação profissional

 

A chegada de um robô num escritório de advocacia traz desconfiança e receio nos profissionais, acostumados a não ter uma companhia tecnológica em suas tarefas do dia a dia, ainda mais alguém que saiba fazer atividades em tão pouco tempo. No Urbano Vitalino Advogados, os profissionais foram envolvidos no projeto. Uma parte da equipe, inclusive, ganhou a responsabilidade de treinar a Carol. Atualmente, sete advogados, quatro desenvolvedores e dois estagiários em programação ficam totalmente focados no treinamento do robô, na Softex, dentro do Porto Digital, parque tecnológico em Recife (PE).

 

O mercado jurídico no Brasil está passando por uma mudança brutal, ainda que lentamente quando comparado a outros países. Não há dúvidas de que o profissional vai precisar se transformar. Prova disso é que a capacidade de análise e leitura de dados, competência que sempre foi essencial para os advogados, passou a ser um requisito muito valorizado no mercado. “Tecnologias vêm para facilitar e diminuir o trabalho operacional. Assim, o profissional foca em estratégia e olhar analítico”, enfatiza Tauan Mendonça, sócio da Vittore Partners, consultoria de recrutamento especializada nas áreas jurídica, tributária, compliance e relações governamentais.

 

Segundo Renato Mandaliti, a hora de pensar em capacitação é agora. É preciso adquirir novas habilidades desde já para conseguir navegar em um mundo cada vez mais dinâmico e fluído. Saber gerenciar projetos e entender de economia são dois itens importantes, por exemplo. “Diria que talvez tenhamos de ensinar codificação [programação] na faculdade de direito. Eu tive de estudar linguagens para não ficar de fora da conversa.”

 

Mesmo assim, ainda são poucas as faculdades de direito a olhar de perto essas transformações. A Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo e o Rio de Janeiro, tem uma disciplina obrigatória de programação no curso de graduação. “No médio prazo, acredito que vão surgir cadeiras acadêmicas na graduação para análise de dados. É uma questão de tempo. Por outro lado, a geração entrante no mercado de trabalho é mais tecnológica.”

 

Criada em 2017, a Future Law oferece cursos presenciais sobre temas como ciência de dados, inteligência artificial, blockchain, design thinking, metodologias ágeis, tudo aplicado ao direito. Hoje, ser bom em tecnologia é fundamento para quem trabalha na área, avalia o advogado Bruno Feigelson, CEO da Future Law e da startup Sem Processo, e membro do conselho de administração da Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L). Com a tecnologia tomando conta de atividades repetitivas, sobra tempo para o profissional exercitar a capacidade cognitiva e a criatividade.

 

Em 2020, a escola lançará a primeira turma online do curso “advocacia 4.0”, um percurso que ajuda a inserir o advogado neste novo cenário, que inclui análise de dados, automação, novas leis de proteção de dados, legal design thinking e direito da inteligência artificial. “Sai a lousa e entram os dados. É um curso muito visual e com elementos gráficos”, explica Feigelson.

 

Oportunidade para empreender

 

Como em outros mercados, as transformações no setor jurídico provocam medo e ansiedade nos profissionais, mas também abrem espaço para novos negócios. “Para os empreendedores, é um oceano azul. Em 2017, existiam 20 startups, número que passou de 100 em setembro deste ano. O crescimento é exponencial”, exemplifica Tauan Mendonça, da consultoria Vittore Partners. Levantamentos mais recentes dão conta de 250 startups brasileiras com soluções para o mercado jurídico. No mundo, esse mercado movimentou mais de US$ 1 bilhão em 2018, conforme dados da LawGeex.

Como em outros mercados, as transformações no setor jurídico provocam medo e ansiedade nos profissionais, mas também abrem espaço para novos negócios

No Brasil, uma delas é a Sem Processo, criada por Bruno Feigelson e mais seis sócios há três anos. A plataforma ajuda a destravar processos judiciais. Atualmente, o Brasil tem cerca de 100 milhões de processos judiciais, incluindo casos que demorariam anos para serem resolvidos, muitos deles que poderiam ser solucionados por meio de acordos. Hoje, a startup atende cerca de 200 empresas, entre elas, Amil, Raízen e Pepsi, e possui mais de 500 escritórios de advocacia cadastrados na plataforma.

 

Tanto para quem vai trabalhar em escritórios ou área jurídica de empresas, quanto para aqueles que pretendem montar um negócio, o recado é claro: além de desenvolver novas habilidades e competências, é preciso manter um ritmo de aprendizado constante e contínuo